DESDEnhas: as resenhas do Desde

En(cruz)ilhada é um soco na cara da sociedade  5/8/2017
Leno Sacramento em cena de En(cruz)ilhada. Foto: Rodrigo Veloso

Sabe todos aqueles estereótipos associados aos negros? Eles serviram de mote para o monólogo En(cruz)ilhada, uma intervenção política mais que necessária para os dias de hoje. Com texto e (boa) atuação de Leno Sacramento (Bando de Teatro Olodum e Ouriçado Produções), o espetáculo faz a gente refletir sobre como a sociedade vê e trata os negros, estabelecendo "lugares" e "limites" para eles.

Em pouco mais de 30 minutos de pouco texto falado, Leno aborda as encruzilhadas pelas quais os negros passam diariamente e põe a lupa em fatos que, para muitas pessoas, podem até passar despercebidos. Como o negro é tratado no ônibus, na loja, na rua, na sociedade? Em qualquer lugar, a cruz sempre pesa. En(cruz)ilhada provoca o público a pensar em como atitudes descabidas e perpetuadas pelo tempo caracterizam o racismo, que ainda tem raízes fincadas no solo brasileiro.

Tudo funciona muito bem na peça. Desde a direção precisa do jovem Roquildes Junior à disposição do cenário, em forma de cruz, ampliando a metáfora que dá título à montagem e mostrando como os negros são encurralados pelos sistemas sociais. A luz de Marcos Dede e a trilha de Gabriel Franco são elementos fundamentais no espetáculo, que chegam a "contracenar" com Sacramento. A poesia de Nelson Maca fecha a costura textual, dando ainda mais substância à dramaturgia.

O monólogo tem que ser visto por todas as pessoas que fazem parte da nossa sociedade. Principalmente, pelas preconceituosas e racistas. O soco tem que doer e fazer efeito. O espetáculo segue em cartaz todas as quartas-feiras (a partir do dia 9/8), no Teatro Gamboa Nova, com apresentações às 16h e às 20h. Os ingressos custam R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira).

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Chico e seus mil e um sentimentos 19/7/2017
Cena final de Todo Sentimento. Foto: Iure dos Santos Silva
O universo literário e musical de Chico Buarque ganhou mais uma versão para o teatro: o espetáculo Todo Sentimento, que estreou ontem, no Teatro Sesc Casa do Comércio, revelou todas as facetas do artista carioca. A mostra didática da turma de 2016, do Curso Livre de Teatro do Sesc, trouxe um elenco cheio de fôlego e, principalmente, de afinação. Em todos os sentidos. Tanto em cena quanto na parte em que o coro preenche a sala de apresentação. Inclusive, sempre que isso acontece, a peça cresce em dramaturgia.

Durante as ações, o espectador é convidado a pensar nas canções de Chico para além da musicalidade. Os sentimentos presentes em cada obra são evidenciados na encenação, dirigida pelo experiente Ramón Reverendo. Na mostra, é possível ver o Chico amante, malandro, trovador, cronista e, claro, político. Nesse sentido, a reflexão, o choro e o (pouco) riso são as reações que tomam conta da plateia. O espetáculo começa com a necessária (e atual!) Roda Viva e termina com O Meu Guri, uma crônica que denuncia um problema social ainda presente na realidade brasileira. Diante dos fatos que estão acontecendo no Brasil, a montagem serve para nos tirar do ostracismo, convidando a reagir e repetir os dias de luta de outrora.

Para quem conhece a obra de Chico Buarque e está a fim de revisitar e para quem não conhece, Todo Sentimento vale a pena. O drama segue em cartaz hoje e amanhã, às 19h. A entrada é gratuita.
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A nossa "ser humanidade" em Minha Irmã 9/7/2017
Lorena Bastos (em pé) e Cássia Domingos, em cena de Minha Irmã. Foto: Eduardo Sena


Duas irmãs descortinando a vida, num jogo de acusações no qual fica difícil saber quem é mocinha ou quem é vilã. Na verdade, isso não é importante. A força da dramaturgia do espetáculo Minha Irmã está exatamente no caráter realista da história encenada no palco do Teatro Gamboa Nova, pela Companhia Total de Teatro: fala de relação humana, mostrando que "não há nada só bom/nem ninguém é só mau". Enfim, a peça mexe com os nossos sentidos, evidenciando as nossas imperfeições e fragilidades.

Com texto de Marcos Barbosa e direção de Marcos Oliveira, Minha Irmã estreou no Gamboa no dia 5/7 e segue em cartaz até hoje, às 17h. As atrizes Cássia Domingos (Amália) e Lorena Bastos (Emília) estão na mesma altura e densidade em cena, o que não é comum de se ver. A direção de Oliveira fez com que as artistas brilhassem com equilíbrio, numa interpretação em que a naturalidade se faz presente o tempo todo. O espectador vê a relação de dominadora e dominada sem lugares marcados, porque há uma alternância no jogo teatral apresentado. É impossível não destacar o subtexto que grita através dos corpos das personagens. Cássia e Lorena, de fato, emprestaram a casa para que Amália e Emília fizessem morada.

O que é lamentável, e isso é uma realidade do teatro em Salvador, é a forçada curta temporada de que as companhias são vítimas. Para quem tem noção de todo o esforço feito para levar um espetáculo para o palco, é desanimador constatar que um trabalho produzido com até seis meses de antecedência (180 dias) fica, apenas, cinco dias em cartaz. Como diz uma das falas de Amália: "Quem sabe de você, sou eu". Que Minha Irmã volte numa temporada mais longa.

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Homem no Pop: o funk tropical de Caio Dias 24/5/2017
Imagem: José Alves Neto

Músicas dançantes, muito suingue e narrativas sobre relacionamento, sedução e desilusão amorosa: esses são os ingredientes do EP Funk Tropical, do cantor e compositor Caio Dias, lançado em março deste ano. O disco tem produção musical assinada por Victor Euzébio e Matheus Damasceno e é composto por quatro faixas, todas de autoria de Caio. Quem gosta da cena pop, vai gostar do som do cantor mineiro de 27 anos, radicado em Maceió. Isso porque Caio Dias segue a gramática exigida para esse gênero e se diferencia por um detalhe: é homem.

No Brasil, já houve até uma tímida tradição de boy bands. Sidney Magal e Latino fizeram história. Mas um homem, no universo pop, com a estética proposta por Caio, não tem precedentes por aqui. E isso diferencia o artista, que, antes de enveredar para o pop, fez parte da prestigiada banda Baú Novo, de "samba alternativo", que ficou em atividade de 2012 a 2015, em Goiânia.

Caio Dias: funk tropical de Maceió. Foto: Manoel Max

Em Funk Tropical, Caio mostra a sua faceta mais popular. As músicas têm letras simples e de fácil assimilação. Todas grudam. Só Vai Bastar, que abre o EP, fala de flerte e sedução. O refrão avisa: "Só vai bastar um olhar pra eu te convencer/A ser minha companhia até o amanhecer/Prometo dar uma noite cheia de prazer/E ainda pago a sua bebida". A música tem uma boa batida de funk e é um convite para dançar. Tanto é que Caio tratou logo de produzir um videoclipe dela, em que propõe uma coreografia um pouco confusa e sem criatividade. A produção já tem mais de 3800 visualizações no YouTube.

Na faixa seguinte, Vírus, o mote é a dominação. O vírus "domina" o ser amado, direciona o desejo dele e sustenta o sentimento de posse, enumerando coisas materiais: "Me olha de relance/Mas finge que esqueceu/Daquela noite suada entre você e eu/Me finjo de amante/Que não te conheceu/Mas chego perto de mansinho/Pra te lembrar o que é meu/Esse teu tênis branco/Teu dinheiro no banco/Esse teu falso encanto/Agora entendeu?/Teu cabelo na moda/Tua fama na roda/Teu desejo agora sou eu/Agora entendeu?". Vírus é, no que diz respeito à letra, a mais fraca do EP.

Já a divertida Freelance é um bom acerto. Quem escuta, visualiza o que a letra diz e fica com vontade de cantar o refrão junto com Caio: "Virei freelance/Tô vendendo romance/Porções de meia hora de puro prazer/Vi seu recado/Querendo meu serviço/Mas já deixei gravado, pra não te atender". Além disso, o suingue é envolvente, próprio para pista de dança.

Spell, toda escrita em inglês, é uma praga em forma de música e traz eu-lírico feminino: "I'll became a witch/I'll remember your name/I'll throw you a spell/I'll win your game". A música é boa. Ao escutá-la, o ouvinte associa a forma de cantar de Caio e o arranjo a Elvis Presley e seu rockabilly.

O funk tropical de Caio Dias é uma mistura de tudo e atende ao que ele se propõe. Vale a pena escutar. Sem preconceitos.

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O visível e o previsível em Axé - Canto do Povo de um Lugar   21/1/2017
Foto: reprodução do Facebook

Assim como o trio elétrico no carnaval de Salvador, o documentário Axé - Canto do Povo de um Lugar já está nas ruas. O filme de Chico Kertész estreou no dia 19 de janeiro e pode ser um sucesso, não propriamente pelo conteúdo que veicula, mas por mexer com a memória afetiva de muitas gerações. Afinal de contas, muita gente já "tirou o pé do chão"ao som da Axé Music, vertente da música baiana que ganhou notoriedade a partir de 1985. No documentário, pessoas ligadas ao gênero analisam o início, o ápice e o declínio do movimento musical.

Com a sua obra, Chico consegue recuperar a poesia que já esteve presente na Axé Music. É impossível, para quem gosta do estilo, não se arrepiar em alguns momentos do filme. Principalmente, quando a produção se debruça na origem de tudo. Ouvir Márcia Short falar sobre o ingresso dela na Banda Mel e a qualidade musical do grupo, faz a gente rememorar muita coisa, dá vontade de chorar e é um convite à reflexão: o que aconteceu com a nossa musicalidade? Por que, hoje, ela está no ralo? Aonde vamos parar? As coisas vão mudar? Essa, talvez, seja a maior qualidade de Axé - Canto do Povo de um Lugar. Ou seja, suscita a reflexão e isso já é um grande passo para as coisas começarem a mudar.

O documentarista segue a gramática mais simples para esse tipo de produção cinematográfica, reunindo um amontoado de depoimentos pouco dissonantes. Na verdade, Kertész fez o filme para que ele ficasse na história, e vai ficar, por ser o primeiro dessa magnitude sobre a Axé Music. Nas entrevistas, quando perguntado sobre o que o motivou a fazer o documentário, o cineasta diz que faltava um documento que desse a grandeza do tamanho do movimento (embora haja trabalhos acadêmicos e livros que levantam boas discussões sobre a cena!). Nesse sentido, o que está presente na tela é o óbvio, o que deixa ainda mais evidente a intenção de Chico. 

O visível está no documentário. E o previsível também. Não se pode ter a pretensão de falar de um movimento musical sem ouvir os compositores. Nisso, Axé - Canto do Povo de um Lugar peca. Sem compositor, não se faz música, tampouco um gênero. Muitos compositores que contribuíram para o sucesso da Axé Music não foram ouvidos pela produção do filme. Quem vai a uma sessão da obra cinematográfica de Chico Kertész, e não é pesquisador da área, sai sem saber quem é Luciano Gomes (autor de Faraó, Divindade do Egito), Tote Gira (parceiro de Daniela Mercury em O Canto da Cidade) e tantos outros (Guiguio, Gilson Babilônia, Alain Tavares etc.). De fato, uma falha grande. De qualquer forma, Chico colocou o bloco na rua e o seu lugar na fila já está garantido. Como diz uma música de Axé: "Há interesses? Totais!".

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Não larga O DOCE, pIVETE!   19/11/2016
Ivete Sangalo, acompanhada pelo instrumentista Hugo Sanbone, em trecho do vídeo da música O Doce: gênese da Axé Music. Imagem: reprodução do vídeo


A produção da cantora Ivete Sangalo publicou, ontem, na Vevo, portal de clipes musicais, o vídeo oficial da música O Doce. O registro é parte do projeto Ivete Sangalo - Acústico em Trancoso, lançado pela baiana em julho deste ano. Assim como Bora Amar, da Banda Avenida Sete, lançada no ano passado, O Doce é um bom respiro dentro da vertente da música baiana classificada como Axé Music. Isso porque a canção não segue a linha ditada pelo atual momento do universo musical mais popular: não fala de balada, de marca de bebida, não traz o nome da cantora na letra, não enaltece partes físicas dos seres humanos e não deixa o eletrônico sobrepujar o aspecto percussivo da nossa musicalidade.

Composta por Gigi e Filipe Escandurras, O Doce carrega muitos elementos embrionários da Axé Music. Faz a gente lembrar do fricote, do merengue e da lambada. Nesse sentido, há trechos que pedem uma dança a dois, há trechos em que o melhor é dançar sozinho e atender ao famoso pedido de "tira o pé do chão". E, como fala de amor, um tema universal, a letra é certeira, repleta de simplicidade e de metáforas modestas (como as presentes nas canções de Luiz Gonzaga, por exemplo); o que é muito bom.

Neste período do ano, os artistas de Axé se movimentam para lançar as músicas que estarão na boca do povo durante o verão. Esse, talvez, tenha sido um dos fatores que contribuíram para a pobreza de nossa música nesses últimos anos. Há uma luta desenfreada para ser o artista dono da "música do Carnaval". Sendo assim, muitos cantores e bandas lançam músicas que são feitas, apenas, para ganhar o título. Se um curioso fizer uma rápida pesquisa na discografia recente dos artistas de Axé, vai perceber que muitas das canções lançadas para o verão não integravam projetos de CD e DVD de carreira. Ou seja, a canção foi gravada somente para disputar o título de "música do Carnaval". A própria Ivete caiu nessa esparrela: O Farol (Ramon Cruz), aposta da cantora no ano passado, foi lançada seguindo essa gramática e não brilhou.

Até nisso O Doce é diferente. A música não caiu de paraquedas em lugar nenhum. É fruto do projeto de Trancoso e, pelo que se percebe das interações nas redes sociais da internet, está ganhando o público de forma espontânea, sem lobby, como deve ser. No vídeo citado no início desta resenha, vê-se uma Ivete Sangalo feliz, comprometida com a música e certa de que marcou um golaço. Uma pivete, que largou o doce, mas agora o traz de volta.

O Doce
(Gigi/Filipe Escandurras)

Não se vá
Que a gente é par
Nós somos céu e mar
Não deixe o nosso amor fugir

Vem tomar
Um guaraná
Bater um papo já
Na rua pra se distrair

Não invente compromisso
Acho bom parar com isso
Tem alguém que te quer
(Tem alguém que te quer)

Não me responsabilizo
Tudo a ver você comigo
Sem você tudo é pequeno
Tudo fica mais ou menos

Ah! Vem cá!
Não tira o doce da boca
Da sua criança

Ah! Vem cá!
Não tira o doce da boca
De quem te ama

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Vivendo em outro mundo   7/11/2016
Nem Mesmo Todo o Oceano: drama, política e alienação. Foto: Elisa Mendes


É possível uma pessoa ficar totalmente alheia à situação de um país em plena Ditadura Militar? O espetáculo Nem Mesmo Todo o Oceano, que esteve em cartaz de 3 a 6 de novembro, na Caixa Cultural, em Salvador, mostra que sim; apesar de deixar evidente que a falta de engajamento já é uma ação e, como qualquer outra, tem as suas consequências. A peça faz parte do repertório da Cia OmondÉ, do Rio de Janeiro, e é uma adaptação de Inez Viana (que também assina a direção) para o romance homônimo do escritor mineiro Alcione Araújo (1945-2012).

Nem Mesmo Todo o Oceano narra a história de um jovem que sai do interior de Minas Gerais para estudar medicina no Rio de Janeiro nas vésperas do golpe militar. Quando o golpe se estabelece, o então estudante de medicina parece viver em outro mundo, evidenciando uma alienação e uma estupidez sem tamanho. Todas as suas ações nos "anos de chumbo" são egoístas, contrariando o espírito de um país, principalmente da maioria dos estudantes universitários, que lutava de forma coletiva para a transformação social.

Depois de formado, torna-se médico legista do Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), um órgão repressor criado pelo Regime Militar. Lá, percebe a real situação do país e vê-se envolvido em tramas tão torturantes quanto a própria repressão.

Em cena, seis excelentes atores da Companhia  Iano Salomão, Jefferson Schroeder, Júnior Dantas, Leonardo Bricio, Luis Antônio Fortes e Zé Wendell  se revezam no papel do jovem e de outros interessantes personagens do texto. O espetáculo é muito bom e merece ser visto. Numa entrevista para uma emissora de rádio de Salvador, Inez afirmou que a OmondÉ retorna aos palcos da capital em 2017. Vamos torcer.

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Tradição nordestina no palco do Teatro Martim Gonçalves   22/10/2016 
Flávia Gaudêncio na pele de Frô: aula-espetáculo sobre tradição nordestina. Foto: Alessandra Nohvais
  Por Raulino Júnior

No mês em que se comemora o Dia do Nordestino (8 de outubro), uma boa forma de homenagear e conhecer um pouco mais as manifestações culturais oriundas do Nordeste é prestigiando a aula-espetáculo Trançados de Memória de uma Atriz-Brincante, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Av. Araújo Pinho, Canela, Salvador-BA), até amanhã. A peça é dirigida por Érico José e foi concebida pela atriz e pesquisadora Flávia Gaudêncio, que atua na montagem. O espetáculo é fruto da pesquisa de mestrado da atriz.

Embora Flávia esteja sozinha no palco, Trançados está muito longe de ser um monólogo. A atriz propõe uma participação efetiva da plateia, que interage com frequência e também contribui para a tessitura da história. Trata-se de um "monólogo dialogado", com todas as contradições que a expressão carrega. A aula é o encontro do trabalho de atriz de Flávia e a cultura brasileira, principalmente a manifestação do Cavalo-Marinho, tradição popular da Zona da Mata de Pernambuco e do sul da Paraíba. O folguedo recebeu o título da Patrimônio Imaterial do Brasil, em dezembro de 2014.

Ao dar vida a três personagens (Ambrósio, Véia do Bambu e Mané Taião), a talentosa Flávia mostra as características e costumes do Cavalo-Marinho. O espetáculo tem um humor no ponto e conta com projeções de vídeo para auxiliar na narrativa. Impressiona a forma como a atriz empresta o corpo para assumir cada identidade no palco. É um trabalho de entrega bem preciso. No desfecho, Flávia brinda a plateia com a carismática Frô, que traz as características mais marcantes dos três personagens citados anteriormente. O único senão diz respeito à sonoplastia, que interferiu, muitas vezes, no momento em que a atriz estava dando o texto.  O som e a fala de Flávia ficaram sobrepostos em alguns momentos, prejudicando a escuta do texto falado.

O espetáculo é valido (assim mesmo, sem acento, para brincar com um dos trechos da peça) e terá a última apresentação da temporada amanhã, às 18h. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Quem estuda na Universidade Federal da Bahia (UFBA), não paga. Para isso, basta levar o comprovante de matrícula e um documento oficial com foto. 

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Para a peça A Incelença só não vai quem já morreu   30/8/2016
A Incelença: humor, drama e um elenco afinado. Foto: Thainá Oliveira
Por Raulino Júnior

Foi necessário adaptar os versos da famosa música Atrás do Trio Elétrico (1969), de Caetano Veloso, para intitular esta resenha, cujo propósito é falar do espetáculo A Incelença, que está em cartaz no Teatro Sesc Casa do Comércio, até amanhã, 31 de agosto, às 20h, com entrada franca. Assim como a música, a comédia é dinâmica, cheia de ritmo e tem um elenco que "bota pra rachar". 

O texto de 1962, de autoria do pernambucano Luiz Marinho, ganhou uma montagem dirigida por Ramón Reverendo para finalizar mais uma turma do curso de teatro oferecido pelo Sesc. Ou seja, o espetáculo é feito por artistas que não têm muita experiência, mas que encheram o palco com o talento e a vontade de fazer o melhor. Todo o elenco estava afinado. A única ressalva diz mais respeito a um aspecto técnico do que artístico: é preciso que os atores projetem mais a voz, para que a famosa "velhinha da última fileira" escute melhor o que eles dizem. Essa falha ficou evidente nos primeiros momentos e em algumas outras poucas ocasiões do espetáculo, que dura cerca de 40 minutos.

A história de A Incelença gira em torno da morte de Quirino. No velório, D. Sindá, a viúva, descobre que o marido tinha uma amante e o enredo se desenrola a partir daí. Personagens caricatos (a beata, as carpideiras, o coronel, o guarda etc.) entram em cena e tudo que costuma acontecer num velório é colocado no palco com toques de humor e de drama: maledicências, conversas aleatórias, piadas, fofocas, comilança e, claro, as incelenças (cantigas executadas em virtude de falecimento). O universo da peça remete o espectador aos textos de Ariano Suassuna e Dias Gomes. É impossível não fazer essa associação. A atmosfera nordestina foi bem criada pelo diretor e pelos atores, tanto no cenário quanto no figurino e nas interpretações.

A Incelença é imperdível. Se você está vivo, vá!

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Kleiton e Kledir de corpo e alma   11/6/2016
Kleiton e Kledir. Foto: reprodução da página oficial da dupla no Facebook

"Deu pra ti/Baixo-astral/Vou pro show de Kleiton e Kledir/Tchau!". Um fã dos irmãos Kleiton e Kledir bem que poderia alterar um pouco a letra da famosa canção Deu pra Ti (Kleiton Ramil/Kledir Ramil) e cantar dessa forma aí. Principalmente, após assistir ao show de ontem à noite, no Teatro Sesc Casa do Comércio, em Salvador. É que, durante a apresentação, a dupla de Pelotas fez o público rir o tempo todo com as histórias que contava, além de cantar músicas consagradas da carreira. Não houve mesmo espaço para o baixo-astral. 

Com um repertório que evidenciava a trajetória musical deles, os irmãos fizeram um roteiro que agradou a plateia, formada, predominantemente, por pessoas mais maduras. Usando a boa estratégia de cantar as músicas mais conhecidas no primeiro momento do show, Kleiton e Kledir abriram a apresentação com Canção da Meia-Noite (Zé Flávio), da época em que integravam a banda Almôndegas, extinta em 1979. "A gente chegou relembrando a fase paleolítica de Kleiton e Kledir", brincou Kledir Ramil, com seu peculiar bom humor. A propósito, essa foi a tônica do show, com Kleiton também arrancando boas gargalhadas do público em outras ocasiões.

Em seguida, cantaram Nem Pensar (Kleiton Ramil/Kledir Ramil) e Fonte da Saudade (Kledir Ramil), que contou com o coro dos espectadores. Quando entoaram Viva (Kledir Ramil), a plateia foi levada pela sonoridade da canção, que pareceu sair do repertório d'A Cor do Som e dos Novos Baianos, pelo suingue, letra e qualidade do arranjo.

Como é de praxe em show de duplas, em alguns momentos da apresentação cada um deles protagonizava a cena, ficando sozinho no palco. Foi assim que Kledir cantou aquela que, talvez, seja a música mais conhecida do repertório dos irmãos: Paixão (Kledir Ramil). O público, claro, vibrou e acompanhou cada verso com entusiasmo. Para aproveitar o clima junino, os cantores colocaram Noite de São João (Pery Souza/Kledir Ramil) no roteiro, fazendo a plateia interagir ainda mais com eles.

Do novo CD, intitulado Com Todas as Letras (Biscoito Fino, 2015), entraram a necessária Lado a Lado (Kleiton Ramil/Kledir Ramil/Alcy Cheuiche) e Pingos nos Is (Kleiton Ramil/Kledir Ramil/Martha Medeiros). Lado a Lado é baseada em um fato real e traz o depoimento de um pai (no caso, Alcy Cheuiche) a respeito do namoro da filha homossexual: "Se tu gostas dela, minha bela/O que é que eu posso dizer?/Me emociono ao ver vocês as duas/O amor precisa acontecer". Todas as canções do disco foram feitas em parceria com renomados escritores da literatura gaúcha. Entre os nomes, ainda estão Luis Fernando Verissimo e Claudia Tajes.

Na sua vez de ficar sozinho no palco, Kleiton homenageou Gilberto Gil com Eu Só Quero um Xodó (Dominguinhos/Anastácia), que o baiano gravou no disco Refestança, de 1978. Depois, protagonizou um dos momentos mais sublimes do show: cantou Corpo e Alma, versão de Kledir para Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon. A música, que parece uma oração, reflete a nítida sintonia entre eles: "Sei que a vida vai aprontar/E o que vier, azar/A dois é fácil segurar/Se Deus deixar, viu, meu amigo/Vou sempre estar aqui/Junto a ti/Feito corpo e alma/Meu irmão, meu par". De emocionar.

Nos momentos finais do espetáculo, o romantismo deu lugar à poesia social. Kleiton e Kledir, no intuito de contextualizar o show com ares soteropolitanos, cantaram Guri de Salvador (Kledir Ramil/Kleiton Ramil), que nasceu quando um menino de rua de Salvador reconheceu Kledir e pediu para ele fazer um reggae. Logo após, vieram Tô que Tô (Kleiton Ramil/Kledir Ramil), Vira Virou (Kleiton Ramil) e Deu pra Ti. No tradicional bis, foi a vez de Maria Fumaça (Kleiton Ramil/Kledir Ramil) entrar na trilha.

A apresentação de Kleiton e Kledir foi de surpreender. Os cantores, que também são excelentes instrumentistas, fizeram o concerto sem acompanhamento de banda. Usaram apenas a voz, o violão (Kledir e Kleiton) e o violino (Kleiton). Um show de música com letra e instrumental. Os artistas estavam completamente entregues, de corpo e alma. Superlativos!

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O grito das mulheres em Eles não sabem de nada   13/3/2016

Naira da Hora e Shirlei Sanjeva em cena de Eles não sabem de nada. Foto: divulgação
Por Raulino Júnior

Atual. Política. Necessária. Esses três adjetivos caracterizam de forma precisa a peça Eles não sabem de nada, em cartaz no Teatro Gamboa Nova. Hoje, às 17h, acontece a última apresentação da curtíssima temporada (estreou na sexta, 11 de março). O espetáculo é, declaradamente, um manifesto feminista e funciona muito bem. O texto de Leno Sacramento, que também assina a direção, é inteligente e cheio de humor, mas a peça não é uma comédia pura e simples. Trata-se de uma comédia dramática, se assim podemos dizer. Funciona porque toca em questões importantes do cotidiano, fala do machismo que está vivo em todos os ambientes e põe o dedo nessa ferida com propriedade. É um grito das mulheres, para mulheres e homens.

Fincada no teatro realista, a montagem põe em evidência o mau comportamento dos homens, por séculos avalizado e estimulado na sociedade, e tece críticas à falta de igualdade entre os gêneros, principalmente no processo de indiferença às vontades femininas. Num dos trechos em que a plateia estranhamente se diverte, as atrizes Naira da Hora e Shirlei Sanjeva reproduzem algumas cantadas proferidas por homens e representam situações em que os caras se acham "os gostosões", como é citado no próprio texto. Além da interação com a plateia durante a apresentação, há, no final, um bate-papo para a troca de informações acerca da temática discutida.

Numa época em que o empoderamento feminino está sendo visto e discutido (o espetáculo, obviamente, fala disso o tempo todo), as duas atrizes exemplificam bem o retrato da mulher de 2016: são competentes, sabem do que estão falando e satisfazem as suas próprias vontades, independentemente de opiniões alheias. As boas interpretações de Naira e Shirlei são, certamente, um ponto de convergência das histórias de vida de cada uma delas e do aprendizado adquirido na Oficina de Performance Negra, oferecida, em 2014, pelo Bando de Teatro Olodum, da qual as duas fizeram parte. No palco, elas estão falando delas, ao mesmo tempo em que falam de todas as outras mulheres.

Eles não sabem de nada é uma peça fundamental, ainda mais quando se pensa nos debates de hoje em dia, que deveria ser cobrada nas escolas e patrocinada pelo poder público. O texto de Leno é costurado por outras referências do movimento negro e feminista, como o poema Eu-mulher, de Conceição Evaristo; e textos do livro Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, de Cristiane Sobral. As citações enriquecem e ampliam a discussão. O espetáculo não tem nada para tirar nem pôr.

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Jornalismo de Revista: a força da imagem   25/9/2015

Foto: captura de tela do site da Editora Contexto.


Numa revista, as ilustrações, fotografias e infográficos são elementos fundamentais. Isso fica evidente para quem lê o livro Jornalismo de Revista, da escritora e jornalista Marília Scalzo. A obra traz informações históricas bem interessantes. Por exemplo, você sabe quando e onde surgiu a primeira revista do Brasil?

No primeiro capítulo do livro, Por que as revistas existem, abrem e fecham?, Marília Scalzo fala sobre a importância das revistas para o jornalismo e para o entretenimento. Segundo a autora, as revistas são verdadeiras prestadoras de serviço porque englobam todo tipo de assunto. Nesse sentido, a grande vantagem delas é a de aprofundar os assuntos que estiveram na pauta de outros meios de comunicação.

O próprio sucesso das publicações, de acordo com Scalzo, é o motivo para que muitas revistas deixem de existir. O espaço para os anúncios começa a ficar muito caro, igualando-se ao da televisão. Dessa forma, os anunciantes se desinteressam em fazer a publicidade, uma vez que o custo/benefício passa a não compensar.

O capítulo 2, Um pouco de história, trata do itinerário do gênero "revista" no mundo. A autora faz um excelente apanhado histórico e cita algumas características das primeiras publicações. Do nascimento, na Alemanha, até os dias atuais, as revistas sempre tiveram como objetivo atingir públicos específicos e tratar os assuntos com profundidade. Mas foi em Londres, em 1731, que apareceu, pela primeira vez, uma revista mais parecida com as que são publicadas hoje. O nome do periódico era The Gentleman's Magazine. Outra curiosidade apresentada por Marília é que, nos seus primórdios, as revistas tratavam de um único assunto.

No início do século XX, surge a Time, primeira revista semanal de notícias. Seu lançamento influenciou a linha editorial de muitas publicações no mundo. No Brasil, a Veja é um dos principais exemplos.

A evolução das revistas no Brasil é o tema abordado no 3º capítulo do livro. Nele, Marília Scalzo traça o perfil e o histórico das publicações brasileiras. A primeira revista nacional surgiu em Salvador, em 1812, com o nome de As Variedades ou Ensaios de Literatura. O periódico tratava de diferentes assuntos, como os costumes sociais, história, literatura, ciência e filosofia. Daí em diante, foram surgindo revistas com os mais diferentes enfoques. Por exemplo, O Patriota tinha como objetivo divulgar autores e temas próprios da cultura brasileira. O Anais Fluminenses de Ciências, Artes e Literatura mostrava as mudanças ocorridas no Brasil devido à evolução do conhecimento humano. A Semana Ilustrada, de 1864, foi pioneira por ser a primeira revista do Brasil a utilizar fotos. Nesse período, começa a profissionalização da imprensa nacional e a necessidade de unir técnica e capital para produzir as publicações.

Muitas revistas fizeram história e se tornaram fenômenos editoriais. Nessa lista, destacam-se O Cruzeiro (1928), Manchete (1952), Realidade (1966), Veja (1968), Visão (1952), Capricho (1952), Senhor (1959) e O Bondinho (1970 a 1972).

O que diferencia uma revista dos outros meios? é a pergunta-título do capítulo 4. A tese defendida é a de que a revista, em relação aos outros segmentos da imprensa e da mídia, fala de maneira mais íntima com o leitor. Marília Scalzo cita o formato das revistas como sendo uma das características mais importantes para fidelizar leitores. Elas são fáceis de carregar e de colecionar, não sujam as mãos, são atraentes (pelo uso de papel especial, fotografias e infográficos). A periodicidade é outro elemento importante dentro desse debate, porque está diretamente ligada ao trabalho dos jornalistas. Um tempo maior para elaboração das reportagens implica, quase sempre, num melhor produto a ser apresentado ao público.

O capítulo 5, Como anda o mercado para as revistas?, só constata uma realidade vivida e acompanhada pelas pessoas interessadas em comunicação impressa. Para não perder espaço e tentar consolidar uma fatia de mercado, as revistas segmentam cada vez mais os seus conteúdos. Muita gente pode pensar que a crise das  publicações é resultado do impacto dos meios eletrônicos. Contudo, Marília ratifica o que muitos estudiosos de comunicação defendem há muito tempo: um meio de comunicação, por mais poderoso que possa parecer, nunca vai acabar com os demais. Há, na verdade, uma complementação daquilo que se fazia anteriormente.

O 6º capítulo, O que é um bom jornalista de revista?, é o melhor dentro da temática abordada por Marília em sua obra. A autora fala sobre a importância da leitura no cotidiano do jornalista e a necessidade de o profissional desenvolver uma razoável cultura geral. A isenção na hora de produzir as matérias é um dos pontos enfatizados por Scalzo. Para escrever bem, ela é categórica: deve-se fazer muitas leituras e escrever bastante. Sendo assim, o jornalista terá mais elementos para contar as histórias que já foram divulgadas em outros meios de comunicação, dando ênfase a outros aspectos.

No capítulo 7, O que é uma boa revista?, Marília destaca a importância de as revistas se renovarem constantemente. Nesse sentido, ter um bom plano editorial contribui para isso. A capa é uma das partes mais importantes nesse mercado, porque, como a imagem numa revista é indispensável, é ela quem vai despertar no leitor o interesse imediato para comprar o periódico. O posicionamento das fotografias, as legendas que as acompanham e a escolha dos infográficos são elementos que, num primeiro momento, podem parecer irrelevantes, mas, na produção editorial de uma revista, fazem toda a diferença. Nesse capítulo, faltou Marília abordar questões mais técnicas relacionadas à produção das revistas.

Ética no jornalismo em revista é o assunto em destaque no 8º capítulo do livro. Nele, obviamente, a jornalista aborda questões como qualidade da informação, precisão, objetividade e isenção. Para quem trabalha na área ou é pesquisador de jornalismo, o capítulo não acrescenta muita coisa. Muito daquilo que é colocado por Scalzo soa como teoriazinha ineficaz. Na verdade, ética na profissão não se aprende lendo compêndios de "como agir corretamente"; mas, sim, agindo de tal forma.

No último capítulo do livro, Revista na prática - ou como acertar o foco no leitor, Marília Scalzo narra sua experiência como redatora-chefe da revista Capricho, de 1990 a 1992. A autora fala sobre as dificuldades e estratégias criadas para fazer a publicação se reposicionar no mercado e ser uma das líderes de venda.

Jornalismo de Revista traz informações relevantes para quem quer conhecer a história, consolidação e crise do mercado de revistas no Brasil e no mundo. A autora apresenta uma pesquisa cronológica abrangente. Porém, deixa algumas lacunas quando se pensa na produção técnica do jornalismo de revista. O leitor com poucas referências de jornalismo, se satisfaz com o texto de Scalzo, e isso é louvável. Contudo, aquele que já tem certo conhecimento sobre a prática jornalística, pede um pouco mais da obra.


Referência:

SCALZO, Marília.  Jornalismo de revista. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2009 (Coleção Comunicação).
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 O hip-hop suingado de Mr. Armeng   20/8/2015

Capa do CD de Mr. Armeng, lançado em 2014. Foto: reprodução da página oficial do artista no Facebook

Você quer levar uma balada para a sua casa? Se respondeu "sim", a dica é comprar o CD de Mr. Armeng e botar para tocar. A festa está garantida! Brincadeiras à parte, essa é a sensação de quem escuta o bom disco do cantor e compositor oriundo do Nordeste de Amaralina, bairro soteropolitano com forte inclinação artística. Lançado em agosto de 2014, o álbum tem o selo da Sony Music e é  fruto da vitória de Armeng no programa Breakout Brasil, do Canal Sony, em 2013.

Quem está acostumado com o rap que põe o dedo na ferida e fala das mazelas do povo, vai se surpreender com o trabalho de Mr. Armeng. A música dele não trata disso, mas também não prescinde do ritmo e da poesia. Quer dizer, não trata disso o tempo todo, aposta na leveza. Isso é evidenciado na primeira faixa do CD, Música Popular (Mr. Armeng/Dudu Marote). Num dos trechos, o rapper entoa: "Não vou cantar o sofrimento do povo/Muitos já falaram disso e eu não vou falar de novo". Recado dado. A música que Armeng se predispõe a fazer é popular, "música pro povo se identificar".

Claro que, com tal escolha, muitas lacunas surgem. Muito mais no que diz respeito às letras do que às sonoridades. Sendo assim, com Embalos de Sábado (Mr. Armeng/Fall Clássico/Zegon/André Laudz) o CD tem a primeira baixa. A música é desnecessária diante do bom repertório apresentado por Armeng. Nesse sentido, Pele Bronzeada (Mr. Armeng/Dudu Marote), que tem a insossa participação de Saulo Fernandes, acaba indo no mesmo embalo, embora tenha uma linha melódica e uma narrativa romântica mais interessantes.

Em Pra Dominar (Mr Armeng/Dudu Marote/DJ Leandro), Armeng volta a ser o Armeng que todo mundo conhece e apresenta uma música com forte batida de funk, percussão bem marcada e elementos de música eletrônica. Além disso, uma letra encorajadora: "Arregaça as mangas, corre, anda/Não tá satisfeito, busca a mudança/Nada vem fácil, disso eu já sei/Você não imagina quanta coisa eu já passei/Mas fiz disso combustível, vitória é o meu hino/O tempo vai passando e sigo evoluindo". Nessa faixa, Mr. Armeng divide os vocais com a paraense Gaby Amarantos.

Na sequência, o CD brinda o ouvinte com A Flor e a Fera (Mr. Armeng/Dudu Marote), que surpreende por ser um samba típico, cheio de cuícas, pandeiros e tamborins. Dessa forma, fica bem evidente o caráter eclético da música de Armeng. Isso também é um reflexo de sua formação musical e, certamente, das contribuições do seu famoso pai, Guiguio "do Ilê".

Com A Noite é Nossa (Mr. Armeng), Armeng traz uma crônica simples, que fala de festa e azaração. Em Vai Viver (Mr.Armeng), faz um golaço, ao misturar rap e soul music. Vale destacar a luxuosa participação de Beto Black e o "empréstimo" que Armeng faz do seguinte verso de Gil: "A Bahia já me deu régua e compasso". "Faça a sua parte, deixa que vem/O importante é nós aqui, junto no que vem" é a mensagem principal de Faça a Sua Parte (Mr. Armeng/Dudu Marote), a oitava faixa.

Cena do clipe ofcial da música Eu Vim de Lá. Foto: captura de tela do YouTube feita em 20 de agosto de 2015

A penúltima música, Vem Cá (Mr. Armeng/Fred Beats), tem um balanço que contagia e ficou muito rica ao contar com a participação de Adriana Drê nos vocais. Mas com Eu Vim de Lá (Mr. Armeng), a última faixa, Armeng faz a gente descambar no clichê "fechou com chave de ouro". De fato, é a melhor música do CD. Em todos os sentidos. Nela, vê-se um Armeng cronista de sua própria realidade e de seu tempo. A canção foi especialmente composta para o documentário Menino Joel, dirigido pelo cineasta Max Gaggino. Na letra, orgulho e pertencimento: "Eu vim de lá e sei o meu valor/Eu sou Nordeste, sim, e honro aonde eu vou/Vim pra vencer, e não ser sofredor/Na busca pela vitória é nos que tá, nego". A música é digna de todos os prêmios; o CD, de todos os aplausos. 

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Viagem pictórica   7/7/2015

Cartaz da exposição. Foto: Raulino Júnior

Pontos lotados, aperto, confusão, barulho, pregações, imprudências, humor e ironia. Tudo isso pode ser visto, em forma de arte, na exposição Bolo no Buzú (assim mesmo, com acento no "u", infringindo uma regra gramatical), da artista Lilian Morais. Com um olhar crítico, a publicitária e pesquisadora de artes visuais retratou o que acontece nos ônibus do transporte público de Salvador. Não deu outra: muito riso e reflexão. O riso vem das coisas que, de fato, são engraçadas (que Lilian soube explorar muito bem!) e a reflexão aparece quando o visitante se identifica com algumas situações e percebe o quanto o serviço de transporte é precário. Na verdade, quem vê a exposição apenas reforça aquilo que já sabia.

Lilian consegue brincar e ressignificar palavras, como fica evidente na tela intitulada CAB no BUZU. A superlotação comum nos ônibus serviu de mote para a pintura, que é ambígua por natureza. Será que cabe tanta gente no buzu? É muita demanda para pouca oferta. E a passagem só aumenta!

CAB no BUZU. Foto: Raulino Júnior

A tela Baculejo no CAB deixa evidente a eterna guerra de braço entre opressores e oprimidos.

Baculejo no CAB. Foto: Raulino Júnior

Nem as dispensáveis pregações ficaram de fora. Uma maioria alheia ao discurso do líder religioso do ônibus. Nessa tela, vale a pena destacar a pintura do letreiro da linha do ônibus, que formou a expressão "Fazenda Grande Dor". A brincadeira, obviamente, se refere à linha "Fazenda Grande do Retiro". Colocar a expressão pela metade foi uma sacada genial e tem muito a ver com a tela e com a realidade de quem pega ônibus, pois os pregadores se colocam como fazendeiros tocando o gado. Imagine isso ao meio-dia?! Faminto?! É de doer!

Pregação. Foto: Raulino Júnior

Diante de tanta imprudência no trânsito, corroborada pelos motoristas dos ônibus, o que resta fazer é pedir proteção a qualquer força que você acredita. Lilian sugeriu Jah.

JAH. Foto: Raulino Júnior

A Suburbana e o Rio Vermelho: dois mundos de Salvador que reúnem pessoas do mundo inteiro! Lilian é antenada! Na tela Suburbana, ela faz referência à capa do famoso disco dos The Beatles. Para chegar à Suburbana, é preciso dar a volta ao mundo? Essa é a sugestão provocativa que Lilian deixa no ar.

Suburbana. Foto: Raulino Júnior

Na tela O Carnaval, Lilian evidencia a festa para "gringo ver". Nesse sentido, é crítica e repleta de humor. Barack Obama, por exemplo, diverte-se na dita "maior festa popular do mundo", só para reforçar o clichê, com fantasia feminina.

O Carnaval. Foto: Raulino Júnior

E para quem faz a festa, mesmo com todos os problemas crônicos do transporte público da capital baiana, o bolo (no sentido real e figurado) é indispensável à comemoração.

Bolo no BUZU. Foto: Raulino Júnior


Ao todo, Lilian Morais apresenta ao público 20 telas, em pintura acrílica. A curadoria é de Francisco Maia. Durante o passeio nas imagens, o visitante se depara com os problemas e situações peculiares do transporte público de Salvador. No final do trajeto, o observador encontra o caos, representado por uma instalação provocadora. Vale a pena embarcar na viagem proposta por Lilian!

No final, o caos. Foto: Raulino Júnior

O trabalho está exposto no Palacete das Artes, na Graça, e fica até o dia 3 de agosto. Os horários de visitação são os seguintes: de terça a sexta, das 13h às 19h; nos domingos e feriados, das 14h às 19h.

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O desabafo de José   30/6/2015

O homem que amava livros e homens: um desabafo. Foto: reprodução do blog de José Aparecido Ferreira


Em tempos de discussões sobre novos arranjos familiares e união civil entre pessoas do mesmo sexo, a leitura de O homem que amava livros e homens torna-se necessária, até para desanuviar coisas que porventura estão como névoa no canto mais oculto do nosso intelecto. A autobiografia de José Aparecido Ferreira foi lançada em 2013 e tem passagens bem interessantes. O autor, que é professor da rede pública de ensino de São Paulo, tem outros livros e disponibiliza toda a sua obra no blog www.joseaferreira.blogspot.com.br/.

O núcleo da história do livro em questão é, principalmente, como José percebeu a sua homossexualidade e como lutou contra isso, casando e virando pai de um menino. Em nenhum momento da narrativa, o professor se coloca como bissexual. Isso fica evidente logo na apresentação da obra: "Espero que as famílias que tenham um homossexual em seu seio, a partir da leitura dessa obra, consigam compreender melhor essa condição e estreitar ainda mais seus laços afetivos", p. 5. 

O clímax do relato se dá quando o narrador conta ao leitor o momento em que assumiu ser homossexual para os familiares e amigos. "Após três anos de casamento, em meados de janeiro de 2000, com vinte e cinco anos de idade, para surpresa de muitas pessoas e familiares, minha vida deu uma grande reviravolta quando decidi me separar de Elisângela e assumir definitivamente minha homossexualidade", p. 52. Desse ponto em diante, o autor aborda alguns de seus relacionamentos com homens (que, de acordo com ele, aconteceu depois do término do casamento. Ao longo da história, José faz questão de enfatizar que, até aquele momento, nunca tinha se relacionado com homens), as decepções amorosas, alguns riscos pelos quais passou por causa de um namorado e também o alívio e alegria de poder ser quem era de verdade.

Outro momento bastante emblemático da obra é quando Ferreira descreve como revelou ao filho Gabriel, então com cinco anos, sobre a sua condição. No final da conversa, depois de todos os esclarecimentos, a criança solta: "Papai, eu te amo do jeito que você é, porque você me dá muito amor e carinho", p. 61. Depois de algum tempo morando com a mãe, Gabriel, aos 14 anos de idade, manifestou a vontade de morar com o pai e com Alexandre, atual namorado de José. A Justiça atendeu à vontade do garoto.

O homem que amava livros e homens trata de uma história comum, de amor. Mostra os problemas, desafios e alegrias de um relacionamento amoroso entre seres humanos. Só peca no excesso de detalhes desnecessários (só para dar um exemplo, ao falar de um passeio que fez com Alexandre, José destaca os sabores dos sorvetes que cada um pediu na sorveteria). Algo que chama atenção também são alguns desvios da norma padrão da língua portuguesa e problemas de pontuação em alguns trechos: "Não posso negar que houveram alguns momentos de alegria no meu relacionamento com 'Z', mas foram muito poucos comparados a tantas coisas ruins que aconteceram e que culminaram no fim da nossa relação em abril de 2008", p. 85-86.

O desabafo serve para abrir a nossa cabeça.

Referência:

FERREIRA, José Aparecido. O homem que amava livros e homens. 2. ed. Jundiaí, SP: edição do autor, 2013.

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Dendê na Mochila: um programa de passeios   22/5/2015


Matheus Boa Sorte, apresentador do Dendê na Mochila. Imagem reproduzida do site do programa

 No sábado passado, 16 de maio, a TV Aratu (SBT/Bahia) estreou um novo programa na sua grade: o Dendê na Mochila. Apresentado por Matheus Boa Sorte, a atração vai ao ar às 13h45 e surge com o objetivo de mostrar e indicar lugares para as pessoas conhecerem e também de encontrar baianos que foram viver em outros estados e em outros países. O formato não é novo, mas o conteúdo apresentado é muito interessante.

Na estreia, Matheus e sua equipe convidaram o telespectador para conhecer a Serra do Tepequém, que fica no município de Amajari, em Roraima; e Santa Helena do Uairén, na Venezuela. Nesses locais, Boa Sorte fez trilhas, mostrou belezas naturais e contou histórias. Pelo que se vê, a lógica vai ser sempre esta: viagens para um lugar do Brasil e para um lugar qualquer em outro país. O segundo episódio vai continuar em Roraima e mostrar curiosidades da Guiana.

Matheus Boa Sorte, no topo da Serra da Rainha, em Tepequém. Captura de tela do YouTube feita em 22 de maio de 2015.

 O programa já começou se destacando pelo fato de falar sobre o estado de Roraima, pouco mostrado na TV. Matheus é seguro quando passa as informações sobre os aspectos culturais dos lugares e sabe costurar bem as narrativas. Na Serra do Tepequém, ao encontrar "Seu Miranda", um garimpeiro baiano que mora lá há 20 anos, Matheus conduz a entrevista como um bom contador de causos.

Em contrapartida, num dos trechos do programa de estreia, em que a equipe encontra um cachorro no caminho, Matheus destaca o fato e diz ao telespectador que "resolveu até colocar um nome no animal, batizando-o de 'Dendezinho'". Destoou. Bem como a trilha sonora, que foi, predominantemente, formada por músicas internacionais. Outra falha do apresentador, foi, com insistência, falar de forma incorreta o nome da cidade venezualana que visitou: em vez de "Santa Elena do Uairén" ele falava "Santa Rita do Uiarén". Um problema pouco grave, mas significativo para quem trabalha com informação.

Dendê na Mochila tem todos os predicados para continuar no ar por muito tempo. É dinâmico e informativo. Inova, quando, no final, mostra o que vai ser exibido no programa seguinte. Uma espécie de "cenas dos próximos capítulos". Isso gera curiosidade e funciona para fidelizar um público. Quem perdeu a estreia do programa, que tem 30 minutos de duração, pode assistir a íntegra no YouTube.

Quem é Matheus Boa Sorte

Matheus Boa Sorte. Captura de tela do YouTube feita em 22 de maio de 2015.







Matheus Boa Sorte tem 22 anos e é natural de Guanambi, na Bahia. É apresentador, publicitário e compositor. Veio do rádio, onde começou aos 12 anos de idade. Cantou e já lançou CD, de "arrocha sertanejo". No canal oficial no YouTube, é possível ouvir algumas de suas músicas e conferir a sua performance artística. Há três anos, não está mais no ramo musical. Ele, que tem um quê de padre Fábio de Mello e Fiuk (e até de Fábio Jr., quando este era mais novo!), se sai melhor apresentando programas. Matheus, boa sorte na nova empreitada!

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A cultura do "vamos fazer"   30/4/2015

Imagem do Aratu Notícias, da TV Aratu, de 28/4/2015. Foto: Raulino Júnior


 Após tragédias, como a que ocorreu em Salvador na segunda-feira, 27 de abril de 2015, em decorrência da chuva, as reportagens de TV são sempre muito parecidas, os cenários onde o caos bate mais forte são sempre os mesmos e o discurso das autoridades é sempre o do "vamos fazer". Por que não fizeram antes? Não foi por falta de aviso! Mesmo porque, casos semelhantes já tinham acontecido.

Político é um ser plastificado. Está ali com uma retórica que é reprodução da reprodução da reprodução... Nada é. Tudo "pode vir a ser". ACM Neto, prefeito de Salvador, concede entrevista a uma emissora de TV e afirma que "a prefeitura vai amparar as famílias que perderam seus entes queridos e seus pertences. Inclusive, dando um auxílio de até 3 salários mínimos (R$ 2364)". Falou algo do tipo. Ajuda? Ajuda. Resolve? Claro que não! Tenho certeza de que a equipe dele entende muito mais do riscado do que nós. Sabe que o problema ali é estrutural e que a proposta de solução deve ser mais abrangente, pensando em evitar que o futuro repita o passado. Cazuza sabia das coisas.

Imagem do Aratu Notícias, da TV Aratu, de 28/4/2015. Foto: Raulino Júnior

Deve-se pensar numa política que evite que as pessoas ocupem terreno de relevo acidentado para construir as suas casas. Em contrapartida, o governo deve apresentar boas altenativas para alocar essas famílias.

Mas, voltemos ao objeto desta resenha, que é o discurso. Do político, especificamente. Sempre tão semelhante! Eles sobem e descem o olhar, enfatizam uma palavra aqui e outra acolá e, impressionantemente, sabem colocar a frase certa, no momento certo. Isso é treino! Infelizmente. Eles seguem os comandos à risca. No caso de tragédias, será que até o olhar de comiseração faz parte da cultura? Do costume? Seria demais!

Enquanto o discurso do "vamos fazer" não for substituído pelo o do "vamos fazer, fazendo", algo próprio da nossa cultura sempre vai existir: o comodismo. O discurso do político é sempre cômodo. E a gente sabe para quem! Isso incomoda.

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Assim era o Valente...   29/3/2015


Biografia de Assis Valente: ele não encontrou a felicidade. Foto: Raulino Júnior
 

Um homem transtornado. É com esse retrato da personalidade do compositor Assis Valente que o leitor sai ao concluir a leitura da biografia Assis Valente: felicidade é brinquedo que não tem, escrita pelo radialista J. Pimentel e editada pela Assembleia Legislativa da Bahia, em 2013, integrando a coleção Gente da Bahia. Se vivesse na contemporaneidade, Assis seria considerado um paciente acometido de transtorno bipolar, pois o humor e a depressão caminhavam lado a lado com ele.

J. Pimentel escreve 505 páginas para contar a vida do baiano José de Assis Valente. E, segundo o biógrafo, nada na história de Assis é. Não se sabe, ao certo, o ano de seu nascimento (1908, 1909 ou 1911?); o local (Salvador ou Santo Amaro?); o nome completo (José de Assis Valente ou José de Assis Valente Filho?). Assis não era um homem definido. A indefinição da sexualidade foi um dos motivos que o levaram a cometer suicídio, em 1958. A única certeza é a de que era baiano, compositor e protético. Aliás, foi bem-sucedido nessas duas atividades profissionais, embora tenha entrado para a história da cultura brasileira muito mais como compositor do que como protético.

Autor de mais de 150 músicas, Assis Valente foi gravado por Carmen Miranda, Marlene, Carlos Galhardo e intérpretes contemporâneos, como Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e Gal Costa. Entre os sucessos, Brasil Pandeiro, Camisa Listrada, E o mundo não se acabou e Boas Festas. Viveu intensamente, integrou a boemia de sua época, foi gastador e não soube lidar com a fama. Tanto é que, ao perceber que já não era mais alvo dos holofotes nem solicitado pelos cantores, criou situações para aparecer. Em vão. Além disso, a rejeição de Carmen em gravar Brasil Pandeiro (ela não gostou da música!) e a ida dela para os Estados Unidos fizeram Assis cair numa depressão que o acompanhou até os últimos dias. A homossexualidade reprimida potencializou a sua tristeza.

Assis casou, teve uma filha (Nara Nadyle, que vive no Rio de Janeiro), mas não nasceu para exercer o papel de "chefe de família". O compositor queria viver livre. E viveu.

A narrativa de J. Pimentel é boa e prende o leitor. Apenas a revisão não foi feita com a atenção que deveria. A obra é um bom começo para conhecer Assis Valente, que é tão pouco lembrado por essa "gente bronzeada".


Referência:

PIMENTEL, J. Assis Valente: felicidade é brinquedo que não tem. Salvador: Assembleia Legislativa da Bahia, 2013. (Coleção Gente da Bahia)

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Sem Acordo: arte marcial soteropolitana   14/2/2015

Marcus Barbosa, em cena de Sem Acordo. Clique na imagem para assistir ao filme. Foto: Raulino Júnior
 

O filme Sem Acordo — Ação em Salvador!, do estudante baiano Marcus Barbosa, 21 anos, é uma experiência inovadora na cinematografia da Bahia. Por dois motivos: utiliza um gênero pouco comum ao cinema da terra de Glauber Rocha, o da arte marcial; e foi gravado com câmera digital de fotografia. Marcus, que é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), faz, literal e metaforicamente, acrobacias para produzir seus filmes. O resultado é satisfatório, principalmente quando se pensa nas condições de produção.

Sem Acordo é um média-metragem que utiliza todos os ingredientes do gênero de ação: assassinatos, conflitos e muita luta. A propósito, as cenas de luta são impressionantes e convincentes. No final do filme, que está disponível no canal do YouTube de Marcus, dá para ter um pouco de noção de como elas foram feitas, através das cenas de bastidores. O audiovisual é dedicado a Panna Rittikrai e Jackie Chan, ídolos do cineasta baiano.

O elenco do filme é formado por amigos de Marcus, nenhum tem formação em teatro. Talvez, por isso, as atuações tenham, ao mesmo tempo, veracidade e imprecisão. Em algumas cenas, fica evidente que os "atores" apenas se preocuparam em gravar as falas, sem atentar para o subtexto. Por outro lado, eles vivem, na pele, os conflitos sugeridos pelo roteiro.

Falando em roteiro, esse é um dos pontos problemáticos do filme. No final, a impressão que dá é a de que nenhuma história foi contada. Há uma confusão na montagem. Contudo, Sem Acordo é resultado do empreendedorismo cultural de Marcus Barbosa, alguém que quer fazer acontecer. E isso é o que vale.

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Novidade boa no Axé!   18/1/2015

Publicidade divulgada pela Banda Avenida Sete, no Facebook: Bora, Amor resgata poesia e ritmo na vertente da música baiana denominada Axé Music



Há muito tempo que os artistas da Axé Music, vertente da música baiana que completa 30 anos em 2015, não criam nada que seja digno de aplausos. O que se vê por aí é um monte de gente querendo aparecer a todo custo e gravando canções que são como produtos de supermercado: "pacote pronto". Aquela coisa rítmica, pulsante e cheia de poesia se perdeu ao longo do tempo. O "comercial" se sobrepôs ao "artístico". O que era espontâneo começou a se encaixar num modelo quase ditatorial. O bom ficou ruim e degringolou.

Mas parece que, no ano comemorativo, o gênero ganhou um bom reforço: trata-se da Banda Avenida Sete. Pouco ainda se sabe sobre o grupo, que começou as atividades recentemente. Em Salvador, houve um certo burburinho em torno dele porque o vocalista já é muito conhecido do público: Dan Miranda, que ganhou notoriedade na Filhos de Jorge, com a música Ziriguidum. A Filhos de Jorge publicou, no dia 2 de janeiro, um comunicado oficial na sua página do Facebook, anunciando a saída de Dan: "O grupo Filhos de Jorge vem, por meio deste comunicado, informar que o cantor Dan Miranda não faz mais parte da banda. Após 6 anos de parceria, o artista se despede do grupo para se dedicar a um novo projeto...".

O novo projeto de Dan tem como objetivo resgatar as raízes do samba-reggae. A banda, que traz no nome uma das avenidas mais famosas de Salvador, já divulgou uma música que representa esse intuito e que resgata a tradição musical da Bahia, unindo ritmo e poesia. Composta por Robson Love, Fagner Ferreira e Magno Sant'Anna, Bora, Amor tem arranjo preciso, uma letra interessante e poética, batida forte e percussiva, tudo isso orquestrado pela voz de Dan; que não é propriamente bonita, mas marcante.

Se continuar caminhando nesse sentido, a Avenida Sete tem tudo para garantir um bom fluxo no congestionado trânsito da Axé Music. Para quem ficou interessado (a) em ouvir a canção, no YouTube há uma publicação com o áudio. Como não é no canal oficial da banda (que ainda não existe) e por questões de direitos autorais, não será publicada aqui. Como aperitivo, segue a letra da obra. "Bora amar?"


Bora, Amor
(Robson Love/ Fagner Ferreira/Magno Sant'Anna)

Encosta a sua boca aqui na minha
Dá um beijo bem gostoso, Amor
Vem cá
Um cafuné de manhãzinha
Coisa assim melhor no mundo, Amor
Não há
Vem que te trago verdade
Te darei felicidade, se você deixar
Eu quero amar e ser feliz
E a vida inteira te chamar

Bora, Amor
Bora, Amor
Bora amar
Ai, ai, ai, ai
Ai, ai, ai ,ai

Como encanto, resolvi cantar sua alma
Sonhando...
Amar é respirar
Amar é respirar

Bora, Amor
Bora, Amor
Bora amar
Ai, ai, ai, ai
Ai, ai, ai ,ai

2 comentários:

  1. Sucesso para o Dan e o novo caminhar. Belo texto, Raulino!

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    1. Obrigado, Sandra! Também desejo muito sucesso para ele!

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