Desde Já: as crônicas do Desde

Meus dois minutos e meio de fama! 10/9/2017
Em comum: a nacionalidade. Fotos: Djavan (Jairo Goldflus); Seu Jorge (sem indicação)

Foi numa sexta-feira. Início de junho. Mais precisamente, no dia 2. Em plena rodoviária de Salvador. Sentei numa das cadeiras daquelas lanchonetes que também povoam o lugar. Coincidentemente, estava tocando a música Mina do Condomínio, de Seu Jorge. Avistei um grupo que estava imediatamente na minha frente e percebi o olhar curioso dele sobre mim. Num determinado instante, ouvi alguém dizer: "Seu Jorge! Seu Jorge!". Fiquei, como sempre, orgulhoso com tal associação. Aí, para reforçar ainda mais a suposta semelhança com o artista, comecei a cantar a música. Quis também evidenciar que conhecia o repertório de Seu Jorge. Entretanto, lembrei que tinha esquecido o livro que levei para ler na viagem no guichê de compra da passagem. Corri para buscar, tendo que abrir mão dos meus dois minutos de fama. Dois mesmo!

Quando retornei, a música ainda estava tocando e eu fiz as vezes de cantor; empunhando, como de praxe no meu cotidiano, um microfone imaginário. Em seguida, já perto de embarcar, senti vontade de ir ao banheiro. Perto do local, encontrei um grupo de garotas. Elas bebiam e comemoravam a vida num café. Assim que me avistaram, falaram: "Djavan! Djavan". Ao passar bem perto de todas, uma delas me disse: "Canta pra gente!". Vontade não me faltou, mas, respeitando o ídolo, soltei risonho: "Quem me dera! Eu queria ter a voz dele!", e segui o meu caminho. O encontro com essas meninas deve ter durado uns 30 segundos. Mais um tempinho de fama para a conta!

Isso [de ser associado a Djavan e a Seu Jorge] sempre acontece comigo. E eu adoro! Certa vez, também numa viagem de ônibus, recebi a alcunha de Seu Jorge por uma ex-famosa cantora de Axé. Não quero revelar o nome dela porque, como todos sabem, hoje em dia, tudo gera processo; mas garanto que a história é verdadeira. Tinha identificado a moça antes de ela entrar no ônibus. Resolvi sentar logo na minha poltrona, para surpreendê-la quando entrasse. Pensei assim: "Não sei se todo mundo lembra dessa cantora. Quando ela entrar, vou fazer algazarra". Eu queria homenageá-la de alguma forma. Principalmente, por sempre ver que ela aparecia nos programas de TV lamentando da atual situação de vida, da falta de reconhecimento e outras coisas. Fiz mais por pena do que qualquer outra coisa. Pensado e feito. Assim que entrou no carro, eu comecei a gritar o nome dela e a bater palmas. Ao mesmo tempo, convocava o restante da galera. Mas a recepção não foi legal. A cantora passou pelo corredor ensimesmada e de cara fechada. Além disso, nenhum passageiro me acompanhou na algazarra. Fiquei sem graça e na minha. O que eu podia fazer depois daquele papelão?

A cantora sentou numa poltrona bem próxima da que eu estava. Só o corredor nos separava. Durante a viagem, "puxou conversa" comigo. Perguntou o que eu fazia, de onde eu era, para onde estava indo. Num determinado momento, disse que eu parecia Seu Jorge e começou a me chamar assim até eu chegar ao meu destino. Eu bem que podia pedir para ela me chamar pelo meu nome, uma vez que fiquei um pouco desapontado com a atitude dela, mas preferi ser educado ao extremo. A artista me falou sobre um projeto social que mantém no Pelourinho e pediu meus contatos. Até hoje espero a ligação dela. Quem sabe não chego aos famosos quinze minutos de fama? Também dizem que eu pareço Toni Garrido, do Cidade Negra e Dodô, do Pixote...

Sigamos.
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A gente não poderia ter um outro da gente?  05/7/2017
Fonte da imagem: Dreamstime
Não poderia? Ia resolver muitos dos nossos problemas. Às vezes, não dá para dar conta de tudo. Nada melhor do que um outro da gente para assumir as responsabilidades que temos (e que adoramos ter, mas que cansam muito!). É uma ideia egoísta mesmo, sem subterfúgios nem esforços para dizer o contrário. Sendo assim, não teríamos problema de confiança nem de falta de disciplina. O outro eu seria exatamente como somos, física e intelectualmente. O barato é que ele se revezaria com a gente em todas as atividades do cotidiano. De fato, seria muito bom.

Enquanto eu fosse ao trabalho, o meu outro eu ficaria em casa adiantando o texto que eu teria que produzir e as leituras que eu teria que fazer. À noite, quando chegasse em casa, seria dispensado dos afazeres domésticos, pois ele assumiria essa parte também. No dia seguinte, o meu outro eu ficaria mais "de boas" e eu seria responsável pelas coisas mais chatas e pesadas. Tudo assim, num harmônico equilíbrio. A gente revezaria as doenças e também o "acordar cedo" para um compromisso. Nos dias de frio, isso seria sopa no mel! Eu ficaria enroladinho nas cobertas, enquanto o meu outro eu sairia para mais um dia de lida. O máximo de esforço que eu poderia fazer era dar um sonolento "bom dia". Olha que beleza!

Imagine ter um outro de você para fazer aqueles exames periódicos que são indiscutivelmente necessários? Outra vantagem é que você poderia participar de todos os eventos de que tivesse interesse, sem sacrificar o trabalho para isso. Quando precisasse lidar com gente falsa e de discurso estrategicamente sedutor, você teria como escapar. Falaria para o seu outro eu: "Você pode dar atenção a ela? Não tenho saco! Para aproveitar o tempo, faço as compras do mês e reservo a pousada da próxima viagem". Seria a glória!

Ter um outro eu significaria não perder tempo, fazer tudo e não se cansar (física e emocionalmente). A vida ficaria bem mais equilibrada. Todos teriam direito a um outro eu. Contudo, se fizessem ações que prejudicassem outras pessoas, perderiam esse "benefício" da vida. Por um outro eu urgente!

Sigamos. 
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A incrível falta do que falar  18/05/2017
Imagem: Raulino Júnior

A era é do nada e do esvaziamento. Por mais contraditório que pareça, a sociedade da informação vive desinformada. A palavra eleita para preencher essa lacuna? Incrível. Pois é! Tudo é incrível! Ou melhor, quando não se tem o que dizer, diz-se que algo é incrível e ponto. Resolve. Saco vazio, ao contrário do que dizem, fica em pé; e por muito tempo.

Na comunicação, isso é muito comum. Recentemente, um apresentador de TV daqui de Salvador, ao fazer a cobertura ao vivo de um show que unia dois expoentes do forró tradicional, soltou: "O show tem um repertório incrível!". Limitou-se a isso. Ele não tinha mais o que falar. Ou não sabia, coitado. Talvez, por viver numa era de poucas exigências, nem se preocupou em pesquisar sobre os artistas, a fim de conhecer melhor o universo de cada um. No fundo, não era necessário. Ele sabia que não seria cobrado. Nem pelo público nem pelo seu chefe. O jogo virou. Agora, é a vez da superfície. É incrível!

Na vida, isso está presente o tempo todo. Por exemplo: ao ser convocada para dar uma opinião acerca de um produto cultural, pela falta de repertório não assumida, a pessoa limita-se a resumir tudo num sonoro "incrível". Falar que não conhece, no pensamento dela, é pior, vale mais ser uma repetidora do adjetivo que caiu nas graças do povo. Outro bom sinal do "incrivilismo" fica evidente quando o espectador sai de um espetáculo de teatro ou dança, cujo conteúdo não ficou, assim, tão compreendido na cabeça e, na falta do que falar quando o amigo que estava em cena indaga sobre o que ele achou, o "incrível" aparece.

De incrível em incrível, a pessoa enche o papo. Fica bem na fita, finge enganar a audiência, que finge acreditar, e tudo permanece como está: incrível!

Sigamos. 
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Longe pode ser tão perto...  12/03/2017 
Avenida Sete de Setembro, em Salvador-BA. Foto: Raulino Júnior
As ruas de Salvador são uma comédia. E o povo que está nelas, também. É bastante curiosa a noção que as pessoas daqui têm sobre alguns lugares da cidade. Na verdade, acho que isso é um mal de quem mora em metrópoles. Tenho a impressão de que quem vive no interior, tem uma ideia mais clara sobre distâncias. Estou falando, exatamente, do seguinte: quando a gente pergunta a um transeunte ou a um motorista de ônibus onde fica um determinado lugar, e se esse lugar dista muito daquele ponto onde a gente se encontra, eles  o transeunte e o motorista —  fazem um estardalhaço, uma agonia, explicam tudo e emendam com um "Está muito longe daqui" ou "Para você descer [do ônibus] e ir andando, é muito longe". E, muitas vezes, o "longe" pode estar ali do lado.

Certa vez, estava na Avenida Sete de Setembro, na região do Relógio de São Pedro, e perguntei para alguém, não lembro se homem ou mulher, se o Santo Antônio Além do Carmo era perto dali, se estava muito longe e se dava para ir a pé. Prontamente, a pessoa me explicou o caminho, disse que era longe do ponto no qual me encontrava, que se eu fosse a pé iria andar muito e que era preferível pegar um ônibus. Eu agradeci, mas, confiando no meu faro, segui viagem. A pé, é importante pontuar. Como era novato em Salvador, queria conhecer, desfrutar a cidade. Porém, se fosse hoje, já tido como "veterano", teria a mesma atitude. Nesse sentido, a minha decisão de chegar ao destino na onze* foi muito acertada. Pude ver a dinâmica da centenária avenida, contemplar a emblemática Praça Castro Alves, respirar história na Rua Chile, na Praça Municipal, no Pelourinho e viver, de fato, a cidade. Quando pisquei, estava no Santo Antônio, num trajeto de pouco mais de 20 minutos. Quanta beleza passou pelos meus olhos durante o percurso! Eu só ganhei.

Lembro também que, há alguns dias, queria ir a um lugar nas imediações do Centro de Convenções. Sem paciência para pegar o ônibus ideal, entrei no primeiro que chegou e que me deixaria próximo. No caso, a linha Alto do Coqueirinho. Ainda assim, para me certificar, perguntei ao motorista se passava perto do meu destino. Intensificando ainda mais o "muito", ele respondeu: "Você vai andar muito para chegar". Mais uma vez, acreditei no meu faro e embarquei. O "andar muito" consistia em atravessar a rua e caminhar uns 15 minutos. Melhor do que ficar no ponto, esperando o ônibus ideal por 40, não é? 

Talvez, o motorista quisesse me preservar da exposição numa cidade perigosa como Salvador. Será?! A distância entre mim e ele impede que eu tenha essa resposta. E essa distância é grande e real. Só sei que as pessoas aqui estão tão acostumadas em transitar com carros de passeio e ônibus, que qualquer andadazinha curta se torna um caminho extenso.

Sigamos.

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*Na onze = a pé. (Fonte: Dicionário de Baianês, de Nivaldo Lariú)

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"Quando você sai com as suas amigas, eu também fico superenciumado. Você pensa que eu gosto?!"  3/12/2016 
Imagem: Raulino Júnior

Salvador, 1º de dezembro de 2016, um cara falando ao telefone numa das avenidas mais movimentadas da cidade: "Quando você sai com as suas amigas, eu também fico superenciumado. Você pensa que eu gosto?!". Pois é. Parece mentira, mas foi verdade. E isso abre espaço para a gente pensar sobre como as pessoas se comportam numa relação amorosa. A era da dominação ainda não passou e o respeito parece ser um elemento dispensável no convívio a dois.

Já ouvimos dizer por aí que ninguém é de ninguém, tem até livro com esse título. O fato é que ninguém é de ninguém mesmo e isso tem que ficar bem pontuado numa relação. A sociedade estimula essa coisa violenta da posse e isso não é legal não. Nem um pouco. Antes de a gente entrar na vida da outra pessoa, a outra pessoa já tinha a vida dela. Ponto. Isso não pode ser desrespeitado em troca de "prova de amor" ou coisas correlatas. Respeito, sempre! Privação da liberdade, nunca!

É estranho saber que uma pessoa se limita para não desagradar quem está ao seu lado e que, ironicamente, diz que a ama. Que amor é esse? Quem ama, não coíbe. Quando o amor convive com a repressão, é sinal de que alguma coisa não está caminhando bem. Isso evidencia falta de confiança, falta de empatia, falta de amor ao próximo.

Opinar sobre a liberdade do outro não passa de intromissão. Por trás de um "Você pensa que eu gosto?!", tem um bocado de coisa que não presta: machismo, egoísmo, intimidação... A nossa vida é nossa. Não pertence a ninguém. Isso precisa ser respeitado.

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A coletiva de imprensa e as vaidades miúdas   17/11/2016          
ACM Neto faz coletiva para lançar a campanha "Salvador, capital oficial do Verão". Imagem: reprodução de vídeo

Hoje, a equipe de Antonio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto), prefeito de Salvador, realizou uma coletiva de imprensa, em São Paulo, para lançar a campanha Salvador, capital oficial do Verão. O evento teve como intuito falar das novidades da cidade para a estação das férias e, claro, atrair turistas daquelas bandas para cá. Normal. Afinal, a equipe de marketing de ACM Neto é sempre infalível. A coletiva foi transmitida, ao vivo, na página oficial do Facebook do chefe do executivo municipal. Outra ação certeira. Contudo, e é algo que parece ser absurdo de questionar, qual deve ser a postura dos profissionais da imprensa nessas ocasiões? A resposta parece óbvia, mas não é.

Chega a ser vexatória a forma como alguns profissionais atuam nesses eventos. Numa coletiva, em condições normais de temperatura e pressão, jornalistas e outros produtores de mídia devem fazer perguntas que, de fato, esclareçam o assunto que motivou a reunião, não é? Hoje em dia, não. A vaidade não deixa. Para eles [jornalistas e produtores de mídia], principalmente "os mais chegados" com os responsáveis pela coletiva, o importante é mostrar o quanto eles são chegados. Quem deveria noticiar, quer ser parte da notícia. Ou, sendo um pouco mais realista, quer ser a própria notícia. É uma autorreferência de lá, um questionamento mal planejado de cá, e assim o laço amistoso se mantém.

Na coletiva de hoje, ACM Neto ouviu, de um famoso apresentador de Salvador, a seguinte questão: "Prefeito, comenta-se muito nos bastidores que o jingle da sua campanha é uma [sic] forte candidata a ser música do Carnaval. Eu não sabia se o senhor já sabe disso [sic], já chegou pra você? Já sabe disso? Dessa informação?". Ao que o prefeito respondeu, sorrindo: "Não. Fora de cogitação. Gostei da repercussão que teve. Foi muito bacana! Enfim... de fato, foi um hit que pegou, mas política, política; Carnaval, Carnaval. Andam separados".

Enfim, de fato, muitas outras coisas deveriam andar separadas, mas a vaidade não deixa. "Bota os pés no chão, Salvador!".

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Ironias Profissionais   10/11/2016      
Celular: um objeto tão pequeno diante da vida. Foto: reprodução do site da Samsung

Hoje, é dia de agradecer a dois ladrões profissionais. Obrigado, queridos! A vida precisa de uma emoçãozinha de vez em quando, não é? Não bastam as estripulias dos nossos políticos. É preciso algo que faça o nosso coração acelerar, para comprovar que estamos vivos. É bacana demais!

Só sendo muito profissional mesmo para poupar mais uma vida, mesmo tendo todo o cenário para transformar um roteiro sem graça numa bela tragédia brasileira. Diga aí: qual bandido vai entender a reação da sua vítima? Quase nenhum! Tem que ser profissional.

O cara vai andando, de boa (expressão da moda por aqui), e é abordado por dois profissionais desprovidos de algumas oportunidades na vida. Aí, esses profissionais, que estão numa motocicleta (provavelmente, emprestada por algum outro profissional bróder. Porque, coitados, eles não têm condições de ter uma moto. Eu superentendo!), emitem expressões rápidas, com rispidez, e pedem para o carinha passar o celular. O carinha passa, imediatamente (ele adora viver!). Só que, na agonia, a vítima joga o celular com um pouco de força. O objeto passa por cima da moto e cai no chão. Um dos ladrões, tão sensato o menino, que estava com uma arma de fogo na mão, não faz uso dela. Olha que legal! Ele não poderia ter apertado o gatilho? Poderia, mas ele era profissional. Que bala!

No final, os dois profissionais vão embora levando o celular, um objeto tão pequeno diante da vida, não é? Eles estão felizes. Mais um dia cumprido!

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   O serto é ser falço?   26/10/2016 
Foto: Eduardo Dantas

Viver não é fácil. Isso já foi amplamente dito por aí. Viver e lidar com pessoas é algo mais difícil ainda. E olha que eu adoro gente! Adoro mesmo! Quando passo por locais em que há muitas pessoas reunidas, a vontade que tenho é de falar com todo mundo, saber das histórias, dos rumos de vida. Sou um curioso nato. Gente me estimula. Não é por acaso que o nome do blog é Desde que eu me entendo por GENTE. Contudo, como diz uma famosa música do nosso cancioneiro, "não está sendo fácil/não está sendo fácil viver assim...". Nesse "assim" cabe um monte de coisa. Inclusive, ter que fazer tipo para viver. Definitivamente, não é a minha. Não dá. E ponto.

Basta observar algumas relações interpessoais para ter asco. Pelo menos, essa é a minha sensação. Há situações em que, nitidamente, a falsidade serve de mola propulsora para se conseguir algo. Essa, na verdade, é a regra atual. É um elogio aqui, uma adulação ali, um bajulamento acolá. Dessa forma, a vida segue e os objetivos são alcançados. Tudo na base do sorrisinho, abracinho e tapinha nas costas. Enfim, estamos perdidos.

Às vezes, chego a pensar que o certo é ser falso. Dá menos dor de cabeça. Não que eu concorde com isso, mas muita gente já percebeu que esse é o caminho das pedras. Ou melhor: o caminho mais fácil. O das pedras é feito por quem está do outro lado, do embate. Ser combativo não é e nunca vai ser a forma mais agradável de viver em sociedade, mas, apesar de tudo, vale muito a pena. De verdade. É mais honesto. Em todos os sentidos.

Da falsidade e dos conchavos nascem os nossos piores líderes e representantes, e as nossas referências também. Parece que quase ninguém faz essa associação. Inconscientemente (ou com consciência mesmo!), a sociedade perpetua muita coisa que, para manter um discurso bonitinho e apropriado, diz que rechaça. É a vida...

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"O novo sempre vem"   23/7/2016
Imagem: Raulino Júnior

Já percebeu que quando você está começando um novo projeto, com aquela expectativa danada, cheio de ideias e concentrando as suas energias para que tudo dê certo, alguns sinais aparecem? Do nada, tudo começa a se conectar. Uma coisa puxa outra e, num dado momento, tudo que você planejou começa a acontecer. Isso é incrível! E animador. 

Novidades nos enchem de vida. É muito bom ter coisas novas para contar, poder dividir, ter os olhos brilhando. A gente enche o saco de familiares e amigos, falando sobre aquilo que está nos motivando. É uma necessidade maior de compartilhar, de ter o aval, de ser abraçado (metafórica e fisicamente).

O engraçado é que a gente coloca o assunto na roda até mesmo quando não tem contexto para tal. Por estarmos tão imbuídos naquilo, toda conversa de que participamos, e achamos uma brecha, é motivo para falar daquilo que não sai da nossa cabeça. Isso acontece no dia a dia. Na fila do banco, no ônibus, no trabalho. Quantas vezes você foi vítima disso? Ou seja: quantas vezes alguém dividiu uma novidade com você? Falando com aquele entusiasmo peculiar e querendo a sua opinião sobre tudo que foi dito? Tenho certeza de que já passou por isso. Ou como emissor ou como receptor.

As redes sociais da internet fizeram com que tudo se potencializasse. Nelas, todo mundo faz os dois papéis. Todo mundo tem algo para contar, para dividir e, quase sempre, espera o retorno de quem está do outro lado da tela. "O novo sempre vem" e quer ter audiência. Muitas vezes, tem. Os emissores das novidades agradecem.

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Promessas para o feriadão   26/5/2016

Por Raulino Júnior

Mais um feriadão e mais promessas. Assim é a vida de Sônio. Toda vez que o calendário o deixa mais feliz, ele promete coisas que, quase sempre, não cumpre. "No feriadão, vou arrumar o meu quarto", "Vou aproveitar o feriadão para concluir aquela leitura que se arrasta há seis meses", "Eu só vou poder fazer isso no feriadão", "No feriadão, estarei mais tranquilo. Eu ligo para você e a gente combina alguma coisa". Ultimamente, a vida de Sônio é mais retórica e menos prática.

Quando o feriadão chega, a preguiça vem a galope e ele acaba sem fazer nada. Não faz o que tem que fazer nem faz aquilo que poderia fazer. Poderia aproveitar para ver uma exposição, ir ao teatro, curtir uma praia, visitar os amigos. Poderia. Futuro do pretérito. Sônio faz tanto "tudo ao mesmo tempo agora" que, quando tem uma folguinha, aproveita para dormir.

Nisso, ele é campeão. O celular desperta, ele vira para o lado e fica alheio ao som do aparelho. Promete que vai levantar. Só promete. O telefone, configurado para tocar de 15 em 15 minutos, cumpre a sua função. Já Sônio...

Quando, de fato, vai levantar, perdeu toda a manhã. Aí empurra as promessas para a noite, certo de que vai cumpri-las. Liga o rádio, a TV, o computador. Tudo ao mesmo tempo. É facilmente seduzido pelo entretenimento. Promete que, no dia seguinte, vai cumprir o acordo que fez consigo. O dia chega e a preguiça também. Sônio consulta o calendário para saber quando será o próximo feriadão. Não tem. Desespera-se e tenta fazer "tudo ao mesmo tempo agora". Mas o pouco tempo que resta não vai dar tempo para isso. Sônio promete que vai mudar.

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Usando com culpa   18/3/2016
Menos papel, mais consciência. Foto: Raulino Júnior

É claro que deve ter uma estatística sobre o gasto de papel para enxugar as mãos quando a gente vai ao banheiro. O difícil é encontrar. Na verdade, em relação a isso, não precisa nem recorrer a uma pesquisa. A olho nu, fica evidente o desperdício. 

Se você for contabilizar o número de vezes que vai ao banheiro em um dia e a quantidade de papel que utiliza, pode se contentar com um mundo com menos fotossíntese. A gente usa os papéis disponíveis (seja a toalha de papel ou o higiênico) com uma culpa danada. Quero acreditar, pelo menos, que uma boa parcela da população tenha esse sentimento.

Não é fácil querer ajudar a natureza nesse sentido. Principalmente, porque não tem alternativas que sejam, ao mesmo tempo, higiênicas e ambientalmente corretas. Há muita discussão sobre o uso das toalhas de papel e dos secadores de mãos. O que é melhor? Ainda não há um consenso. Uma matéria publicada no site da revista Galileu, em fevereiro de 2010, afirma que um estudo feito por uma famosa fabricante de papéis sanitários para higiene pessoal apontou que "os secadores de ar quente aumentam em até 254% a porcentagem de microorganismos [sic] nas mãos, enquanto o uso das toalhas descartáveis de papel reduzem [sic] o nível de bactérias em até 77%". Aí está o nó.

E se cada pessoa usasse a sua própria toalha de pano, a fim de reduzir o gasto e o desperdício de papel? Seria uma solução adequada? Hum... Acho que não é uma boa ideia, haja vista os argumentos citados acima e os outros tantos estudos dos microbiologistas. A biossegurança agradece.

O que nos resta é fazer um uso consciente dos papéis. Isso já ajuda.

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O pedestre, o trânsito e a culpa alheia   14/11/2015

Imagem com licença Creative Commons. Fonte: https://pixabay.com

Já reparou como a gente se esbarra no trânsito? É um empurra-empurra, uma falta de paciência, uma pressa em chegar. Daí vem a pergunta: será que só os motoristas transitam de forma irresponsável? Preste mais atenção e veja como os pedestres se comportam nas vias públicas. É um verdadeiro caos. Com direito a congestionamento e tudo.

A verdade é que, como o poeta não previra, não há somente uma pedra no meio do caminho. Há muita coisa: postes, balde de lixo, orelhões (ainda!) e, obviamente, pessoas. Onde tem pessoas, tem confusão, pisada no pé e tombos. Eventualmente, um pedido de desculpa aqui e acolá. Contudo, a culpa por tudo isso acontecer nunca é minha, é sempre dos outros. É assim que justificamos.

Nós, pedestres, somos desatentos, prestamos atenção na vida alheia e não respeitamos o sinal de trânsito. Se ele estiver no vermelho, no amarelo ou no verde, pra gente, muitas vezes, tanto faz como tanto fez. Tal como alguns motoristas, também não seguimos as convenções. Estamos na era do celular na mão e do esquecimento de nosso entorno. A generalização colocada aqui é provocativa.

Será que seremos os motoristas que criticamos? Ou já somos? Uma coisa é certa: o comportamento de quem está no volante reflete a postura de quem está nas calçadas. Absolutamente. O pedestre impaciente de hoje é o motorista impaciente de amanhã. Não há direção defensiva que dê jeito!

Sigamos.

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Manda nudes!   24/10/2015
Ilustração: Raulino Júnior

Joãozinho estava todo empolgado! Acabara de conhecer, como ele dizia, a mulher de sua vida.  A escolhida: Mariazinha. Depois daquele dia, eles nunca mais deixaram de manter contato. Foi um encontro frenético.

Contudo, numa ensolarada manhã de domingo, ao abrir a caixa de e-mail, viu uma mensagem de Mariazinha com o seguinte assunto: "Manda nudes!". Estranhou a expressão desconhecida e tratou de pesquisar na rede. Encontrou várias explicações, além de notícias falando de um caso recente, envolvendo um ator famoso e sua mulher. Pensou: "A Mariazinha quer que eu envie fotos assim...".

Como ele não queria sair de careta nem perder a oportunidade de conquistar a moça, sacou o celular e foi para o quarto. Por sorte, o irmão ainda não havia chegado do futebol. Ficou pensando na melhor pose, fez testes no espelho, escolheu o melhor ângulo e apertou o botão. Pronto! Trabalho feito!

Em seguida, voltou para a sala e transferiu os dados para o computador. Escreveu um novo e-mail, cheio expressões picantes e demonstração de carinho. No assunto "Meu nudes!". Enviou. Aí lembrou que não tinha aberto o e-mail de Mariazinha. Ao clicar na mensagem, leu o seguinte:

"Oi, Jô! Td bem? Viu essa notícia sobre aquele ator de novela? Rsrsrsrs! Cuidado! Ñ fica mandando nudes por aí. Que loucura! Mas kda um faz o q qer, né?! Vou ligar pra vc, pra gente marcar alguma coisa. Bjo!

Little Mary"

Joãozinho ficou em pânico. Esperou a ligação de Mariazinha o dia todo. Não dormiu. Às 7h, quando já estava cochilando, ouviu o sinal no celular. Abriu a  mensagem com euforia: "Vc enlouqueceu?! Me conhece há pouco tempo. E seu eu divulgasse aquilo? Precisamos conversar!!!". 

E Joãozinho resolveu dormir, "pro dia nascer feliz".

Sigamos.
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Para o dono, o cão é sempre manso   11/9/2015

Ilustração: Raulino Júnior


 É engraçado: quando a gente anda pela via pública de qualquer cidade, encontra alguém guiando um cão e desvia por temer a fera, a gente sempre escuta: "Não morde! É manso". Quem já passou por isso, levanta a mão! Acho muito engraçado. Primeiro: não morde, você, que é o dono. Segundo: é manso, para você, que é o dono. Terceiro: para morder, basta ter dente. Nesse caso, cão que ladra; morde, sim!

Fico tentando entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que afirma que o seu cão não morde e é manso, mesmo quando um estranho se aproxima dele. É com base em quê? Qual o referencial? Falo com um pouco de ironia, mas, verdadeiramente, quero compreender se há alguma teoria psicológica que respalde isso. Alguém sabe? Será que existe uma ética própria do "mundo cão"? O dono do bicho se apropria de todos os postulados e faz mestrado em comportamento animal. Deve ser.

Ao perceber a nossa vontade de nos esquivar do seu "amigo fiel", o dono, quase sempre, parece esboçar um incômodo. Sei lá! É como se não encontrasse razão no medo alheio, uma vez que o seu bichinho (que, muitas vezes, é quase do tamanho dele) é educado e tratado de forma carinhosa. A fidelidade canina advém de um vínculo, não é? Então...

Comigo, tal situação é recorrente. Quando acontece, dou um risinho passageiro e sigo adiante. Bem longe do cão e do dono. Prefiro não arriscar.

Sigamos.
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"Eu sempre quis ser artista"   27/8/2015

Imagem: Karla Kristyane


Outro dia, assistindo a um programa de TV, vi um artista da nova geração afirmar que sempre quis ser artista. Achei tal afirmação um pouco estranha. Esse estranhamento acontece de forma recorrente, quando ouço alguém dizer isso. Imediatamente, me perguntei: "Artista é uma questão de 'querer ser' ou é uma questão de 'ser'"? Pois é. Fiquei com esse nó na cabeça.

Antes de desfazê-lo, se é que isso vai ser possível, é importante pensar no conceito de arte. Outro nó. Mas, e acho que todo mundo concorda, arte pressupõe criação. É uma necessidade daquele ser humano criador. Não é só uma busca pelo reconhecimento ou uma iniciativa preocupada com questões financeiras. É, como já disse, necessidade de expressão. E essa expressão pode ser feita em qualquer lugar, para um público diminuto, amplo ou, inicialmente, para ninguém. A satisfação é a mesma.

É bem verdade que, hoje em dia, tudo está muito confuso. Já ouvi jornalista, que trabalha em TV, iniciar uma frase assim: "Nós, artistas que trabalhamos na TV, temos que nos acostumar com o assédio". What?! Basta aparecer na TV para ser artista? Calma, pessoal! Muita calma! Vamos, todos, colocar os pés no chão.

Às vezes, as pessoas confundem (será?! Hum...) e acham que ser famoso é sinônimo de ser artista. Não é. Nem todo artista é famoso. Nem todo famoso é artista.

Para mim, o artista é, não quer ser. E ponto. Claro que, ao longo do seu caminho, ele vai se podando, melhorando. Contudo, "querer ser artista" me remete a algo que tem tendência a ser produzido. Não nasce. Transforma-se. Pode dar muito certo por um tempo. Por um tempo...

Sigamos.

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A Salvador do "daqui a pouquinho"   29/7/2015


Imagem com licença Creative Commons. Fonte: https://pixabay.com/en/icon-alarm-clock-clock-time-157349/
 
Em Salvador, quase tudo atrasa; quase nada começa no horário. O atraso está institucionalizado nessa cidade. É incrível e revoltante! Isso é uma verdade tão verdadeira que as pessoas marcam os compromissos já prevendo o atraso. Pois é. Somos todos reféns.

Quem é pontual, perde tempo. O motivo: ter chegado no horário. A pessoa se esforça para chegar ao compromisso com pontualidade, mas como ninguém chega, ela fica lá, isolada, perdendo tempo. Aí, sempre tem alguém que, achando que está fazendo a melhor coisa do mundo, traz a satisfação: "A gente vai começar daqui a pouquinho. Vamos aguardar só mais cinco minutinhos". Tudo em "inho" piora tudo.

Isso também demonstra o quanto o Brasil é um país que valoriza muito mais quem age "fora da lei". Por aqui, alguma coisa só começa quando os atrasados chegam. Pode?! Pode. Quem é pontual que espere! A raiz de muitos problemas está nesse comportamento tão simples e banal. É complicado.

E reunião com colegas? Uma comédia anunciada, mesmo antes de ouvir as desculpas mais "criativas" pelo telefone: 1. "Chego daqui a pouquinho. Me atrasei porque derrubei café na minha roupa e tive que lavar". 2. "Chego daqui a dez minutos. Não tinha ninguém em casa e eu tive que levar a minha vó ao médico". Ah, tá!

Já fui a um evento que estava marcado para começar às 8h e só teve início às 10h40. Haja paciência! Verdade seja dita: espetáculos em teatros costumam sempre começar no horário. Quer dizer, depois dos três sinais, atrasam um minutinho. Falei em "inho", para não fugir da tradição. Mas não serei tão espartano assim. Palmas para os teatros e vaias para Salvador e sua institucionalização do atraso.

Sigamos.

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Quando blogueiros e educadores se encontram...   22/7/2015

Convite do evento Encontro com Blogueiros, promovido pelo Colégio Estadual de Conceição do Jacuípe (CECJ). Foto: captura de tela feita em 9 de julho de 2015

É uma festa! Não tem expressão melhor para traduzir um encontro de blogueiros e educadores. Tive a honra de participar de um, no começo do mês, em Conceição do Jacuípe (que, por sinal, é o meu chão), e foi isso que ficou. Ainda mais que o encontro foi feito para e com estudantes do ensino médio. Festa completa.

O verbo compartilhar está na moda e isso ficou evidente na experiência de "ir aonde o povo está". Os estudantes, cheios de vontade de aprender e de ensinar, compartilharam com os convidados o melhor deles: respeito, interessse, educação e inteligência. Narrando, aqui, não dá para descrever o que aconteceu naquela manhã de sábado, 11 de julho. Qualquer palavra que eu use vai ser pequena diante da grandiosidade do fato. 

A educação esteve viva, conectada com a realidade. Por isso, o encontro foi tão prazeroso. Quem disse que estudar é chato? Muito pelo contrário! Estudar, quando a gente encontra pessoas dispostas a fazer a diferença, é a melhor coisa do mundo. É gratificante ver professores comprometidos com a arte de educar. Só os mais sensíveis sabem o que é isso.

Blogueiros são cheios de expectativas e gostam de liberdade. Educadores gostam de liberdade para encher estudantes de expectativas. Quando blogueiros e educadores se encontram, o processo de ensino/aprendizagem ganha mais uma possibilidade de sentido. E isso é muito bom. Dá satisfação.

Ass.: um blogueiro educador.

Sigamos.

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Estou falando é de Amizade 15/6/2015


Nesses últimos dias, estive pensando sobre a Amizade. Principalmente, por observar como as pessoas se relacionam nos tempos de agora. Acho tudo muito estranho. Muito mesmo! A recente morte de Fernando Brant, que, junto com Milton, compôs Bola de Meia, Bola de Gude, a música que me retrata de forma precisa, me fez refletir ainda mais sobre o assunto. A música, não a morte. Que fique claro. É que num dos trechos, os compositores dizem: "E não posso aceitar sossegado/ Qualquer sacanagem/ Ser coisa normal". Penso assim.

Não dá para aceitar tudo e viver sorrindo para os amigos, a fim de não se "queimar", "perder a amizade" ou sair como chato. Se o sentimento de amizade, de fato, existe, a sinceridade vem por tabela. Indispor-se é bom. Nossos amigos, assim como nós, são imperfeitos e cheios de subjetividade. Respeitar as diferenças é saudável. Apontar as falhas, chamar a atenção e discutir posturas também. Isso é amizade.

O contrário disso é qualquer outra coisa. Porque amizade é confiança. Ponto. Hoje, a gente quase não tem isso [confiança]. Não estabelecemos uma relação. A gente pode até achar uma pessoa legal, interessante, mas isso fica da porta pra fora. A gente não quer trazê-la, em definitivo, para o nosso mundo. Às vezes, não serve nem para uma amizade no Facebook, onde a superficialidade impera. Falta confiança. É triste, mas estou sendo sincero. Comigo tem sido assim. Infelizmente.

Talvez, por acreditar muito nas pessoas e me surpreender negativamente com algumas atitudes delas, tenha perdido a vontade de aprofundar a relação. Não quero ser amigo, tampouco inimigo. A indiferença de hoje em dia também me acompanha.

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Quando a fila é o ombro amigo 10/5/2015 

Ilustração: Raulino Júnior
 
Hoje, infelizmente, ninguém mais conversa. Vizinhos não se conhecem. A poltrona do lado não quer interagir. Às vezes, nem um cumprimento é dado. A interação tem mediador: o aparato tecnológico. Estranho esse tempo atual. Tanto que, quando a "regra" é quebrada, o estranhamento também aparece.

Fila é um ótimo lugar para conhecer pessoas e conversar. Mas, hoje em dia, em que cada pessoa tem um mundo portátil nas mãos, a fila perdeu essa potencialidade. Ainda assim, o milagre acontece.

O milagre, para mim, tem nome: Yolanda (nem sei se o seu "Yolanda" começa com "Y", mas ela tinha cara de Yolanda com "Y"). Dona Yolanda, porque, certamente, ela já deve ter mais de 60 anos. Mas não aparentava. Não sei por qual razão, começou a conversar comigo, contando detalhes da sua vida. Inspiro confiança. Isso me envaidece.

Soube de sua filha que mora na Inglaterra e é fisiculturista; do neto, filho do filho de 37 anos, que vai nascer em junho; do seu afeto pelo genro, mas nem tanto pela nora; até conheci um pouco de seus preconceitos. Foi Dona Yolanda quem me contou sobre o assassinato de um transformista, ocorrido na noite de sexta, no Tororó. Enfim. Uma experiência simples, mas pouco comum na atualidade.

Dona Yolanda estava sedenta por conversar, contar suas histórias. Eu, apenas, me dispus a ouvi-la. Fui seu "amigo", por poucos instantes, numa era de amizades virtuais sem substância. Me senti bem.

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O vilão  24/4/2014



Foto: Raulino Júnior

Ele está em todo canto. E eu acho que tenho medo dele. Fico trêmulo! Está em dez, de cada dez cidades brasileiras. Se a gente acorda cedo, vai encontrar com ele. De tarde e de noite, também. No meu caso, só até o início da noite. Graças a Deus! Em casa, fico em paz. Para mim, ele é vilão. Sempre!

Posso assegurar: hoje, não existe repartição sem ele. É o mundo moderno ("muderno!"). É um pouquinho de Europa aqui? Será?! Eu não quero me europeizar! Mas é difícil, amigos. Muito difícil! Mesmo porque, ele me persegue. Vixe! Muitos alegam, dizem que a culpa é da queima de combustíveis fósseis. Balela!

Para mim, é hábito. Na verdade, tudo é hábito. Antes, não tinha isso. Não precisávamos dele (e eu ainda não preciso!). Hoje, todos acham essencial. Eu não acho! Por causa dele, meu dentes viram uma ala de bateria de escola de samba. Fico chateado! Não rendo! Minha voz quase não sai! A vontade que dá é de tacar pedra nele e provocar um acidente. Ou seria incidente? Eta! Isso não é importante! O fato é que a minha educação, muitas vezes, não me deixa agir como eu penso. Agradeça, ar-condicionado!

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Primeiro dia de aula  14/3/2015


Sônio está no ônibus, a caminho da universidade. No trajeto, levanta hipóteses, imagina, faz projeções. Está feliz e a felicidade, para ele, é qualquer coisa que o comove. Estudar é comovente. Mexe com ele. Sônio é mais um dos milhares de estudantes que buscam, que querem e que vão conseguir. Chega, dá bom dia e senta.

O professor também chega, também dá bom dia e também senta. Na aula, há vários questionamentos, inclusive sobre o conceito de cultura. Dífícil reduzir. Difícil conceituar. Sônio pensa em cultura como cultivo, alimento, mas sabe que não é só isso. A aula prossegue, exemplos contemporâneos e tradicionais figuram na discussão. Tudo constrói. Tudo fortalece. 

Sônio tem certeza de que fez a melhor opção: ser um eterno estudante. Isso não invalida outras possibilidades. Acrescenta. Num dado momento, voltando para casa, se certifica do quanto uma aula é importante. Por isso, acha que elas poderiam ser gravadas e disponibilizadas para mais pessoas. Hoje, isso é tão possível, tão comum. "Por que não acontece?", se questiona. Vale ressaltar que ele se refere às aulas normais, com estudantes, professores, debates etc. Enfim, Sônio sonha.

O primeiro dia de aula correu bem. A expectativa ficou. Ele já espera pelo próximo.

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Assis Valente está me perseguindo. Espia...  12/2/2015



Capa da biografia de Assis Valente, de autoria de J. Pimentel. Foto: Raulino Júnior
 
 Ano passado, organizando umas coisas em casa — papéis e revistas para jogar fora —, encontrei, numa edição da extinta revista Bravo!, uma matéria que falava sobre Assis Valente. Até então, não recordo se já tinha ouvido falar no compositor baiano. É bem possível que sim, uma vez que já li coisas sobre Carmem Miranda e ela gravou importantes músicas compostas por ele. A verdade é que já conhecia algumas músicas de Assis, mas não sabia que eram dele. Muitas delas são bem famosas, como E o mundo não se acabou, Boas Festas ("Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...") e Brasil Pandeiro.

O texto da Bravo! me deixou bastante intrigado. Assis Valente era baiano, era compositor e, dizem, era santamarense. Muita identificação! Além disso, a sua suposta vida transtornada (principalmente, por não saber lidar com a própria homossexualidade), descrita na matéria da revista, que foi assinada pelo crítico de música Pedro Alexandre Sanches, chamou a minha intenção. Vi, ali, um personagem interessante. Corri para a internet a fim de buscar mais informações sobre o cabra e descobri que muito pouco se encontra sobre ele. No seu texto, Pedro apontara isso. Falava sobre a falta de "livros, filmes e minisséries" sobre o autor. Se estivesse vivo, Assis faria 100 anos em 2011. Na época, foi pouco lembrado.

O fato é que o compositor vem cruzando o meu caminho. Por acaso. Há pouco dias, caiu no meu colo a biografia dele, de autoria do radialista J. Pimentel. A obra faz parte da coleção Gente da Bahia, uma promoção da Assembleia Legislativa da Bahia. Os livros são distribuídos gratuitamente. Estou saboreando o de Assis. Sei que farei alguma coisa grande envolvendo a história dele. Estou entusiasmadíssimo! Como é bom poder ler!

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30 minutos de Face    8/2/2015




Às vezes, eu penso: "A internet é uma ferramenta maravilhosa, que a gente pode se informar, aprender, fazer cursos e eu a utilizo tão mal". E é verdade! Por mais que eu leia muito, esteja atento às coisas do jornalismo e da educação, muitas vezes, me sinto tão medíocre, navegando em sites que não acrescentam nadica de nada. É frustrante!

Puxa! A gente tem um recurso riquíssimo nas mãos e não damos o devido valor. Acho que tudo também depende da organização do nosso tempo. Por que, antes de toda essa revolução, a gente tinha tempo para estudar, ler, visitar os amigos e, ainda, dormir cedo? Meu Deus! Hoje, nosso tempo é do Face! É claro que estou sendo bem radical, usando o Facebook como metonímia disso tudo, mas a lógica existe. Quantas vezes eu digo para mim: "Raulino, hoje, você vai ficar apenas 30 minutos no Face"! Quem disse que eu cumpro? Que raiva! E, assim, a briga interna começa:

"Você já está há 15 minutos no Face", alerta a minha consciência.
"Estou ligado. Só estou vendo as minhas notificações aqui. Saio daqui a pouco", retruco eu.
"Raulino, você disse que ficaria 30 minutos no Face. Já estamos em 28".
"Estou saindo". 
"Você tem livros para ler, texto para produzir e, amanhã, tem compromisso cedo". Aí, beltrana compartilha um link interessante, fulano começa a discutir com ciclano e eu, curioso, quero acompanhar os comentários. Quando vejo, já estou há mais de uma hora e meia na rede. É sério!

Agora, decidi: 30 minutos e não se fala mais nisso! Vou aproveitar o tempo para ler, dar atenção aos meus e fazer um curso de inglês pela internet, é claro! Consciente, sim; mas atenado com o meu tempo, não é?

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A culpa é do Dias Gomes   18/1/2015

Amo jornalismo! E essa minha paixão pela atividade nasceu na escola e foi corroborada pelo meu vício em TV. Lembro que, na primeira série do Ensino Médio, a professora de português passou um trabalho em que tínhamos de ler uma obra da literatura nacional e fazer uma dramatização com algum trecho dela. Sugeri à minha equipe que trabalhássemos com um clássico de Dias Gomes, O Pagador de Promessas, peça teatral de 1959. Sugestão acatada, o segundo passo foi o de fazer a imersão no universo do nosso conterrâneo. Pesquisa, leituras, distribuição de personagens. Fiquei com o repórter sensacionalista. A distância ética, entre mim e ele, era abissal. O personagem não tinha o intuito de informar, mas distorcer a peregrinação de Zé-do-Burro. Contudo, o gostinho pela prática jornalística nasceu ali. Quando da morte de Senna, lembro que anotei num caderno algumas informações que, mais tarde, tive consciência de que formavam o lide. Mas meu coração bateu forte pelo jornalismo ao interpretar o personagem criado por Dias Gomes. Na peça, ele nem tem nome e aparece acompanhado por um  fotógrafo, o Carijó.

Hoje, quando saio de casa para fazer uma entrevista, apurar informações ou cobrir algum acontecimento, me sinto a pessoa mais feliz do universo. Afora os devaneios da profissão, os conchavos e os puxa-saquismos, tudo me encanta. De tudo que o jornalismo proporciona, o melhor é conhecer as pessoas e suas histórias. Contá-las é matar a sede com água. E eu gosto de pensar em pautas, e eu gosto de entrevistar, e eu gosto de escrever, e eu gosto de conhecer vários mundos. Enfim, admito, sou um workaholic do jornalismo. Não desligo nunca nem acho que devo desligar. Sinto-me ultrapassado se o fizer. É Charlie Hebdo, na França; esquema de corrupção na Petrobras; escolha do secretariado do governador da Bahia; 30 anos do Axé. Tudo me interessa. Fazer o que gosta é, de fato, sonhar acordado. Visão romântica do jornalismo?! Sim! E daí? "Talvez, eu seja o último romântico...".

Obrigado, Dias Gomes.

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2 comentários:

  1. Fazer o que gosta é como degustar uma deliciosa torta de chocolate sem a menor culpa de pesinhos a mais. É viver! É satisfação! É alegria! Parabéns! Já sou tua fã!!!!

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    1. Com certeza, Sandra! Você falou tudo! Também te admiro bastante! Obrigado.

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