terça-feira, 11 de julho de 2017

Quando o buraco é mais embaixo e eu faço questão de empurrar

A indústria da cortesia. Foto: Raulino Júnior

A lista amiga não é amiga. Não vivo da renda de espetáculos artísticos, tampouco sou milionário, mas tenho consciência de que artistas precisam ser valorizados pela arte que produzem, e isso perpassa também pela valorização financeira. Todo mundo sabe que viver de arte, no Brasil, é um sonho que se torna real para poucos. Todo mundo sabe. Mas o que é que, sendo generalista, todo mundo faz? Nada. No menor sinal de "coloque o seu nome na lista e pague meia", o que se vê é uma corrida desenfreada, tal qual formiga atrás de doce. É complicado. A indústria da cortesia está acabando com o fazer artístico de milhares de pessoas. Muitas vezes, os próprios artistas dão vazão para isso. Como combater esse mal? É o convite que eu faço: vamos pensar?

A Lei 12.933, de 29 de dezembro de 2013, que dispõe sobre "o benefício de pagamento da meia-entrada para estudantes, idosos, pessoas com deficiência e jovens de 15 a 29 anos comprovadamente carentes em espetáculos artísticos-culturais e esportivos", é categórica ao dizer que apenas estudantes regularmente matriculados, que comprovem a sua condição de discente, têm direito ao benefício. Na prática, não é isso que acontece. Sem querer falar das ações fraudulentas que certamente pululam Brasil afora, há um instrumento ilegal que está tomando conta das casas de espetáculo há algum tempo: a tal da lista. "Ilegal" porque não existe legislação que embase tal procedimento. E o pior: a lista é, quase sempre, avalizada pelos próprios artistas, profissionais que não vivem da sua arte, por diversas razões, e que têm de se sujeitar a isso, para seduzir a audiência. É uma espécie de autoboicote. Ele existe e, talvez, o artista não perceba que está dando espaço para que isso aconteça. A criação de uma lista, que não tem legalidade alguma, não seria uma forma de desvalorizar a criação que já anda tão desvalorizada? Todos precisam pensar sobre isso. Principalmente, os fazedores de arte.

Como um artista de teatro, por exemplo, consegue manter a sua arte viva descambando para a lista amiga? Observe: eu sou um ator, faço das tripas coração para levantar um espetáculo, ensaio por horas a fio, perco noite, participo da produção e, quando estreio, percebo que as pessoas próximas, minhas amigas, só se sentem estimuladas a ir ao espetáculo se eu conceder uma cortesia ou colocar o nome dela na lista. Dessa forma, ela não paga nada ou paga a metade do valor do ingresso. No final, quem paga o meu trabalho? Eu mesmo?! Essa conta não fecha. Não tem que ser assim. Não pode ser assim.

O nome na lista no intuito de pagar meia causa um outro problema, que tem a ver com a legislação vigente. De acordo com a lei, "a concessão do direito ao benefício da meia-entrada é assegurada em 40% (quarenta por cento) do total dos ingressos disponíveis para cada evento". Se há essa restrição, como é que um instrumento ilegal, como a lista, continua existindo, uma vez que ela passa a ser (ou deveria passar, para que não houvesse injustiças) um "benefício" à parte do 40% do total de ingressos disponíveis? Essa conta não fecha. Quem paga? Como ficam as pessoas que têm o direito legal de pagar meia-entrada nisso tudo? Como se sentem as pessoas que podem pagar, mas, ainda assim, colocam os seus nomes nas famigeradas listas? 

A cota de meia deve ser destinada para quem realmente tem o direito de pagar meia. Caso contrário, mais uma encruzilhada será fomentada e os menos favorecidos serão sempre os atingidos. Você, que se vê como sujeito sensível a essa causa, nem perceberá que o buraco é mais embaixo e que você está fazendo questão de empurrar aquele artista que admira para lá. 
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2 comentários:

  1. Perfeito, Raulino.

    Precisamos frequentar os espetáculoscom verdaeiro interesse nele e não como um favor ao amigo artista.

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    1. É isso aí, Nildson! O artista precisa ser valorizado. Inclusive, financeiramente. Grande abraço!

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