sábado, 26 de maio de 2018

Roda de conversa sobre o Dia da África destaca a pujança do continente

Evento promovido pelo Olodum reuniu lideranças negras de Salvador
Participantes da Roda de Conversa África Atual. Foto: Raulino Júnior

A Roda de Conversa África Atual, que aconteceu na tarde de ontem, na Casa do Olodum (Pelourinho), teve como objetivo propor uma reflexão acerca da África de hoje, bem como fazer um paralelo com a realidade brasileira. A reunião foi idealizada em comemoração pelo Dia da África, celebrado em 25 de maio, e contou com a participação de João Jorge Rodrigues (presidente do Olodum), Zulu Araújo (diretor da Fundação Pedro Calmon), Carla Pita (conselheira do Olodum e educadora), Luciane Reis (publicitária e idealizadora do MercAfro), Aquataluxe Rodrigues (administradora, produtora cultural e integrante da Comissão de Juventude do Olodum), Kátia de Melo (fundadora da Escola Olodum), Tonho Matéria (cantor, compositor, gestor cultural, publicitário e mestre da capoeira) e Abraão Macedo (empresário e palestrante motivacional). A Roda de Conversa foi a segunda da série de ações pensadas para comemorar o Dia da África no Centro Histórico de Salvador. A primeira foi um almoço no restaurante Cantina da Lua, em solidariedade a Clarindo Silva, empresário e agitador cultural que teve os bens do estabelecimento penhorados devido a uma dívida trabalhista.

Rafael Manga, mediador do encontro e um dos organizadores do evento, disse que a iniciativa nasceu para trazer outros diálogos, estrategicamente ausentes das pautas da mídia tradicional, para a internet, aproximando do público jovem. "O Olodum é um grupo cultural que tem diversas ramificações. Entre elas, a TV Olodum. Essa proposta inicial em Dia de África é da TV Olodum, a fim de abrir espaço para outros diálogos, uma nova forma de se comunicar com a sociedade, trazer essa temática para dentro da internet. Sobretudo, com essa juventude que está antenada nos blogs, os digital influencers. Às vezes, a gente fala que a juventude não tem interesse, talvez ela não tem acesso. Nós estamos entrando nesse processo, nesse meio de comunicação, para dialogar com as diversas formas de juventude e da sociedade civil em geral. O Dia de África é um dia muito importante para a sociedade brasileira, sobretudo pela colaboração que a África tem aqui. Esse momento de corrupção, esse momento de democracia é uma coisa muito atual".

Rafael Manga: "O Dia de África é um dia muito importante para a sociedade brasileira". Foto: Raulino Júnior

A Roda de Conversa foi  aberta por João Jorge, que destacou a importância de pensar um pouco na África contemporânea: "Essa conversa é para pensar um pouco sobre os problemas atuais da África contemporânea, dos nossos problemas e começar abrir o caminho de uma discussão que não seja só da herança africana bem antiga. Os países africanos vivem aqui, ao lado da gente, que tal a gente saber um pouco mais de Angola, da África do Sul, de Gana, da Nigéria, do Benin, do Marrocos?", provocou. Para Zulu Araújo, embora alguns países africanos apresentem problemas semelhantes aos do Brasil, é preciso avançar nesse olhar que se tem da África: "É surpreendente como alguns países africanos têm problemas tão semelhantes quanto os nossos. Eles não estão em 1500 como muitos de nós podemos pensar ou imaginar. Eles têm problema na área da agricultura, da violência, da saúde, do trabalho, do emprego, que é como também o Brasil vive, como boa parte do mundo vive. Então, não dá pra gente se relacionar com o continente africano com o olho em 1500. Não dá pra gente celebrar o Dia da África com o olho em 1500, porque, se a gente continuar fazendo isso, nós estaremos, na verdade, nos aprisionando no século 15, século 16. E esse seculo 15/século 16 é o seculo da colonização. São séculos onde o continente europeu, praticamente, aprisionou e quase destruiu o continente africano. Seja pela exploração predatória que fez naquele continente, levando grande parte dos seus minérios, do seu ouro, do seu diamante; mas, principalmente, levando o seu principal ativo, que foram os seres humanos.Mas concordo integralmente com a afirmação de João Jorge: não adianta a gente ficar se lamentando, não adianta a gente ficar remontando esse passado, sem entender que nós temos o presente para viver e para tocar. Essa iniciativa de a gente dialogar com a África atual significa a gente entender que a África atual, assim como o Brasil, precisa trilhar o caminho do desenvolvimento, o caminho do respeito à democracia, o caminho da diversidade, o caminho do respeito às religiosidades distintas, que brancos, negros, amarelos e indígenas possuem. Significa a gente, também, advogar e defender a cultura enquanto um elemento estratégico do desenvolvimento humano. O que nos faz seres humanos é a cultura, não é outra coisa".

Carla Pita trouxe para a Roda o exemplo de duas mulheres de sucesso do continente africano: Carmen Pereira (primeira mulher a presidir um país africano, a Guiné-Bissau) e Ellen Johnson (primeira mulher eleita no continente africano pelo voto). "É importante desconstruir falsas narrativas em relação ao continente africano no dia de hoje. No dia de hoje, nas redes sociais, tem muita gente compartilhando imagens, infelizmente, de uma África envolta pela fome, miséria, epidemias e existe uma África que nós conhecemos, que é uma africa tecnológica, que é uma África inventiva. Se eu não me engano, a tecnologia 3G chegou ao Brasil em 2008. Em 2005, Angola já tinha tecnologia 3G. O Brasil ainda tem uma visão minimalista em relação à Africa". A educadora ainda falou sobre os equívocos da imprensa brasileira na cobertura da epidemia do ebola. Kátia de Melo falou sobre a atuação da mulheres na gestão política, enfatizando o caráter empoderador disso: "As mulheres negras, as jovens principalmente, precisam entrar nesse espaço de disputa, porque é um espaço de empoderamento perfeito. É um espaço de empoderamento para o nosso modelo de sociedade, que é a democracia. Então, não tem outro caminho. A gente está em varias frentes de lutas, em vários caminhos, mas o espaço para o empoderamento, que vai produzir politicas publicas e definir as questões, é o do poder político", pontuou.

Da esquerda para a direita: Carla Pita, Aquataluxe Rodrigues e Luciane Reis. Foto: Raulino Júnior

Aquataluxe Rodrigues direcionou o seu discurso para os aspectos ligados à mulher preta. Nesse sentido, questões como representatividade e protagonismo da juventude negra e das jovens negras foram destacadas. Aquataluxe mostrou uma projeção na qual trazia perfis de africanas que são referências para mulheres negras de todo o mundo, como a rainha Nzinga Mbandi Ngola, Wangari Maathai (primeira mulher africana a ganhar o prêmio Nobel da Paz, em 2004), Phiona Mutesi (campeã de xadrez, em Uganda, em 2013) e Leila Lopes (Miss Universo de 2011). "A África reconhece os seus e a gente tem que aprender também a reconhecer as nossas. Porque nós reconhecemos os nossos, mas, às vezes, a gente esquece das nossas mulheres guerreiras que fizeram história e que precisam ser reverenciadas e lembradas o tempo todo. Não só por uma questão de igualdade, mas por uma questão também da importância da representatividade", reconheceu Aquataluxe. A administradora chamou a atenção também para a ideia ultrapassada que está no inconsciente das pessoas em relação à África: "A gente tem que tirar essa ideia de que esse continente, com esse grau de complexidade, com mais de cinquenta países, fala a mesma língua, tem a mesma moeda, tem o mesmo sotaque. Essa visão de uma juventude ou de uma população ou de um povo negro, sofrido, não é mais a África que a gente quer representar". Como falou muito de representatividade, Aquataluxe Rodrigues fez uma crítica positiva ao evento: "Eu gostaria muito que, nesse debate como o de hoje, a gente tivesse realmente uma pessoa da África aqui ou que tivesse morando no Brasil, para que essa roda de conversa sobre essa África atual fosse, de fato, representada", sugeriu.

Luciane Reis deu dicas e falou muito sobre empreendedorismo negro. "Nós empreendemos sozinhos. Diferente do empreendedor não negro, que vai ter um mentor dizendo a ele como é que o negócio caminha, como é que o negócio não caminha, que vai ter gente dando suporte psicológico, a gente constrói esse processo sozinho". E completou: "Nós também precisamos parar com essa concepção de achar que a gente só empreende numa perspectiva financeira. A gente não empreende somente na perspectiva financeira. A gente empreende também na perspectiva de disputa politica. A gente empreende no processo da disputa ideológica". Tonho Matéria falou sobre a primeira vez que visitou o continente africano, quando ainda era cantor do Olodum, e fez o seguinte alerta: "Muitas vezes, os elementos africanistas são renegados por nós mesmos qee fazemos parte até do Movimento Negro. Muitas vezes, a gente renega, não quer aceitar certos elementos, certos símbolos". Já Abraão Macedo destacou a importância do uso de bitcoin (moeda digital) pela comunidade negra, para acompanhar os avanços da tecnologia financeira. "Eu acho que a comunidade negra, sobretudo, a baiana, que é empreendedora, os blocos afro, que sempre foram modelos de empreendedorismo e organização, de resistencia organizada, devem pensar nisso. Por que a gente não começar a falar em bitcoins, a investir em bitcoins? A África atual está bem moderna, está à frente do Brasil e, dos cincos países hoje que pesquisam, que quererem saber, que estão investindo em bitcoins, três são africanos: Nigéria, África do Sul e Gana", revelou.

Dia da África

O Dia da África foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) depois que 32 chefes de estado se reuniram na Etiópia com o objetivo de tornar o continente independente do domínio europeu. Isso foi em 25 de maio de 1963 e, na ocasião, os líderes assinaram uma carta de fundação da Organização de Unidade Africana (OUA). A OUA foi a semente para a União Africana (UA) , que a substituiu, em 2002.

Card criado pela União Africana para comemorar o Dia da África em 2018. Imagem: divulgação

Em 2018, o tema escolhido pela União Africana para comemorar o Dia da África foi Ganhar a luta contra a corrupção: um caminho sustentável para a transformação de África. No final do debate, Zulu Araújo fez uma consideração muito pertinente para reforçar essa discussão: "Tem um elemento que deve estar presente na África atual, no Brasil atual, no mundo atual, que é um componente de ordem cidadã: chama-se democracia. Eu conheço, razoavelmente, alguns países africanos e temos que admitir que a democracia não se faz presente na maioria desses países. Isso faz com que a gente continue tendo, assim como no Brasil, uma elite extremamente desvinculada da maioria da sua população. A democracia possibilitará que avanços possam alcançar a maioria do nosso povo e, no continente africano, isso ainda não é uma realidade. A África hoje, apesar de ter lideranças políticas riquíssimas, representa apenas 1%  da inserção na economia mundial", conclui.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Racismo institucional na mídia brasileira é tema de debate na OAB-BA

Racismo institucional foi pauta de debate na OAB-BA. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior 

Como enfrentar o racismo institucional na mídia brasileira? Essa problematização serviu de mote para uma audiência pública realizada hoje à tarde, na sede da Ordem dos Advogados da Brasil - Seção  do Estado da Bahia (OAB-BA), em Salvador. A iniciativa partiu de uma demanda da União de Negros e Negras pela Igualdade (UNEGRO) e teve apoio da OAB-BA e da Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial (CPIR). Além de discutir a ação civil pública ajuizada pela UNEGRO contra a Rede Globo, por reforçar práticas de racismo institucional na novela Segundo Sol (autoria: João Emanuel Carneiro/Direção: Denis Carvalho e Maria de Médicis), o encontro ampliou o debate para todo o histórico de negação da população negra na mídia, pauta sempre presente na agenda do Movimento Negro. "Essa ação nossa é motivada por uma discussão antiga e histórica do Movimento Negro brasileiro. As redes de televisão nos ignoram. Basta saber que estamos nesse estado, que todo mundo sabe que é de maioria negra, mas todas as seis redes familiares e empresariais (excluindo a televisão pública que responde a uma outra lógica) negam admitir nos seus quadros a representatividade desse estado", afirmou Ângela Guimarães, presidenta da UNEGRO.

Da esquerda para a direita: Cássia Valle, Valdirene Assis e Ângela Guimarães. Foto: Raulino Júnior

O encontro, que foi mediado pela advogada Dandara Pinho (presidente da Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial da OAB-BA),  teve como foco o artigo 53, da Lei 13.182/2014, que institui o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa do Estado da Bahia e contou com a participação de representantes de organizações que lutam por direitos e inserção social do povo negro, como o Coletivo de Entidades Negras e o Bando de Teatro Olodum. A ênfase de todos os discursos foi acerca da proporcionalidade dos negros na mídia. "A demanda nossa é também por proporcionalidade. Quando a novela for do Sul, retratando as comunidades alemães, italianas, japonesas, a gente até topa ser 20%; mas passou do Sul, a gente é de 40% pra mais, a gente quer proporcionalidade. Nada menos!", provocou Ângela. Valdirene Assis, procuradora-geral do Ministério Público do Trabalho (MPT), destacou como o órgão pretende enfrentar o problema do racismo institucional na mídia: "A situação da população negra é sempre desvantajosa. A reparação só é possível se a gente pensar num pacote de medidas. O MPT quer que uma instância formada por negros seja implementada dentro da Rede Globo". A atriz, museóloga e escritora Cássia Valle, que integra o Bando de Teatro Olodum, foi bastante enfática no seu pronunciamento: "Tem dois atores do Bando na novela. Não é porque eles estão lá, que nós não vamos lutar. Eu me recusei a fazer o teste, porque, se a Rede Globo quisesse, ela sabia onde encontrar atores para contar aquela história. A gente pode continuar brigando, mas também podemos fazer uma coisa bem simples com o nosso dedo: não ligar a televisão. Vamos brincar de desligar a televisão!", convocou.

Racismo Institucional

Em 2013, o Geledés - Instituto da Mulher Negra publicou o Guia de Enfrentamento ao Racismo Institucional. Na página 11, lê-se o seguinte: "O conceito de Racismo Institucional foi definido pelos ativistas integrantes do grupo Panteras Negras, Stokely Carmichael e Charles Hamilton em 1967, para especificar como se manifesta o racismo nas estruturas de organização da sociedade e nas instituições. Para os autores, 'trata-se da falha coletiva de uma organização em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica'". No Brasil, o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI) implementado no Brasil [sic] em 2005, definiu o racismo institucional como 'o fracasso das instituições e organizações em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em virtude de sua cor, cultura, origem racial ou étnica. Ele se manifesta em normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano do trabalho, os quais são resultantes do preconceito racial, uma atitude que combina estereótipos racistas, falta de atenção e ignorância. Em qualquer caso, o racismo institucional sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações". 

sábado, 19 de maio de 2018

Inscrições abertas para mais uma edição da oficina de uso de blogs por "focas"

Imagem: divulgação
Por Raulino Júnior 

A quinta edição da oficina Uso de blogs por "focas" como experimento para a prática jornalística, que será realizada no dia 26 de maio, está com inscrições abertas. Para participar, basta enviar e-mail para viva.bpeb@fpc.ba.gov.br e solicitar a inscrição. As vagas são limitadas. A atividade, que acontece na Biblioteca Central do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris) desde janeiro de 2018, das 9h às 11h, tem como intuito estimular a criação de blogs por estudantes de Jornalismo e profissionais da área que estão no início da carreira, para servir como portfólio de trabalho. A oficina é gratuita, com direito a certificado.

"Foca" é um termo utilizado entre os jornalistas para se referir a estudantes de Jornalismo ou a quem está no início da carreira. No livro Manual do Foca: guia de sobrevivência para jornalistas, a jornalista e professora da Universidade de Brasília (UnB)Thaïs de Mendonça Jorge, afirma: "Foca é o jornalista novato, bisonho - ou seja, não experimentado -, aquele que ainda pensa em fazer um curso de Jornalismo ou o jovem quem está caminhando para essa profissão", p.13. Citando Carlos Alberto Nóbrega da Cunha, a autora diz ainda que "foca nos Estados Unidos é cub, que em inglês significa filhote. A palavra cub também designa os escoteiros novatos, os lobinhos", p. 13.

Até quem está pensando em fazer o curso de Jornalismo, é considerado foca. Então, se você se considera, inscreva-se na oficina!

quinta-feira, 5 de abril de 2018

No Dia do Jornalista, Biblioteca Central realiza mais uma edição da oficina para "focas"

Imagem: divulgação
Por Raulino Júnior 

A quarta edição da oficina Uso de blogs por "focas" como experimento para a prática jornalística cairá num dia muito especial: 7 de abril, Dia do Jornalista. A atividade, que acontece na Biblioteca Central do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris) desde janeiro de 2018, das 9h às 12h, tem como intuito estimular estudantes de Jornalismo e profissionais que estão no início da carreira a criarem blogs para servir como portfólio de trabalho. A oficina é gratuita, com direito a certificado. Para participar, basta enviar e-mail para viva.bpeb@fpc.ba.gov.br e solicitar a inscrição. As vagas são limitadas.
O produtor cultural Orlando Valle (esquerda) e  o cineasta Miguel Teles: participantes da última oficina, realizada no dia 24 de março. Foto: Raulino Júnior
Como a data é ainda mais oportuna para refletir sobre o papel do jornalismo na sociedade atual, durante a oficina, além de ter informações sobre a origem dos blogs e suas principais características, o uso eficaz da ferramenta no jornalismo, importância do uso das tags nos posts e da produção multimídia, os participantes serão convidados para fazer parte de um debate livre sobre o tema Jornalismo Baiano: caminhos e encruzilhadas.

A série de oficinas faz parte das comemorações pelos sete anos do Desde, blog de experimentações jornalísticas com o viés cultural.

domingo, 1 de abril de 2018

O que a Constituinte de 1987/1988 tem a dizer sobre o tema "família"?

Em Falas de que família(s)?, Enézio de Deus analisa os discursos da Constituinte sobre direitos e relações familiares
Enézio de Deus: obra sobre direitos e relações familiares. Foto: divulgação
Quem quiser saber a resposta (ou as respostas) da pergunta do título desta matéria, basta ir à Livraria Cultura do Salvador Shopping, na próxima quinta-feira (5 de abril), às 18h30. É lá que Enézio de Deus vai lançar o seu mais novo livro, intitulado Falas de que família(s)?: análise dos discursos da Constituinte de 1987/88 sobre direitos e relações familiares (Editora Appris, 2018, 353 páginas). Na obra, cujo embrião foi a sua tese de doutorado, defendida em 2016, na Universidade Católica do Salvador (UCSal), ele usa a Análise do Discurso (AD) francesa para investigar como o tema "família" foi discutido na Assembleia Constituinte supracitada. Em entrevista exclusiva para o Desde, feita por e-mail, Enézio fala sobre a contribuição que o livro dará para a sociedade, explica o que entende por "família" e como as uniões homoafetivas aparecem no livro. Não deixe de ler!

Desde que eu me entendo por gente: O seu novo livro trata de famílias. Antes de mais nada, o que é família para você?

Enézio de Deus: Pessoas unidas por se amarem e desejarem prosseguir juntas. O que diferencia, portanto, uma família de todas as formas possíveis de agrupamento humano é o afeto especial que une seus membros na clara perspectiva de uma vida em comum, por meio da qual são partilhadas não somente responsabilidades, mas, especialmente, sentimentos, sonhos, projetos e desejos em prol da felicidade dos que a integram. Por isso, uma das mais graves injustiças é a negação do status de família a pessoas que, por se amarem, resolveram caminhar juntas. A realidade biológica, por si só, sempre será insuficiente para compreendermos a profundidade dos laços familiares e da própria dimensão do que seja uma família. 

Desde: Em Falas de que família(s)?, você coloca em destaque os discursos da Constituinte de 1987/1988 a respeito do tema família. Como nasceu a vontade de documentar isso em forma de livro?

ED: Toda investigação científica de impacto social, isto é, que possa ser utilizada em prol de uma sociedade mais justa, respeitosa e solidária merece ser divulgada e circular das formas mais variadas, pelos mais diversos ambientes. Como minha tese de doutorado apresenta essa relevância e engajamento, entendi que sua maior visibilidade significaria contribuir para uma sociedade melhor. Daí por que ela sair, agora, publicada como livro pela Editora Appris. Essa minha investigação, empreendida com a imprescindível responsabilidade científica, brotou do meu desejo de analisar cientificamente os discursos - dizeres e silêncios - da mais longa Constituinte da nossa história, a de 1987/88, para saber como e por que a família foi delineada, até chegar à sua redação final no texto da Constituição Federal aprovada em 1988 (art. 226 e outros dispositivos aplicáveis). Não identifiquei, desde antes da seleção para ingresso no doutorado, pesquisa científica ou obra com tal recorte e metodologia analisando a base discursiva sobre família emanada dessa Assembleia Nacional Constituinte. Foi o que empreendi, portanto, sob a competente orientação do querido Prof. Dr. Edilton Meireles.

Desde: Para estudar os discursos, você usou a Análise do Discurso de linha francesa. Por que optou por esse campo teórico-metodológico ?

ED: Para que eu pudesse (como, de fato, consegui) ir além da velha busca hermenêutica pelo “melhor sentido” ou “melhor interpretação”, algo tão repetido em minha área, de um “romantismo superficial” incabível nas minhas lentes sociais (de gênero, de diversidade, de entrecruzamento da história com a língua, as ideologias e o inconsciente). O campo da Análise de Discurso (AD) francesa é fantástico na condição de teoria e método a um só tempo, porque cuida de como os dizeres e silêncios significam ou geram sentidos, isto é, de como os processos discursivos se realizam, tensionados e significando pelos atravessamentos ideológicos. A AD, assim, viabilizou, pelo seu potencial crítico e abertura interdisciplinar, a concretude da minha investigação com aportes principais nas contribuições do seu fundador, o filósofo Michel Pêcheux, e da sua maior expoente no Brasil, a professora Dr.ª Eni Orlandi. Tais aportes tiveram o meu olhar (para os atravessamentos ideológicos nos discursos parlamentares) ampliado a partir de outras/os teóricas/os - feministas, juristas progressistas, etc. - que estão devidamente referenciadas/os no meu livro, a exemplo da Dr.ª Salete Maria da Silva, Dr. Rui Portanova e Dr.ª Sônia Jay Wright.

Imagem: divulgação
Desde: Qual é o lugar da família homoafetiva na sua obra?

ED: Como ela foi abortada deliberadamente da Constituinte “Cidadã” (sem qualquer mínimo lugar reservado em tal processo discursivo), o seu lugar, na minha obra, é o de demonstrar como se deu essa sua exclusão consciente, por meio de uma política do silêncio proposital, inviabilizadora de que qualquer direito familiar de tal natureza fosse escrito ou reconhecido no texto constitucional. Se a expressão “orientação sexual” (algo tão mais básico para cidadãs e cidadãos LGBTs naquele momento histórico ansioso por liberdade e maior respeito) foi conscientemente excluída da redação final da Constituição como critério geral de não discriminação nos primeiros artigos, imagine a resistência (imensurável), que bem explicito na obra, para se reconhecer qualquer caráter familiar a uniões afetivas entre pessoas do mesmo sexo. Gays e lésbicas, ao contrário de tratados/as como cidadãos/ãs na Constituinte “Cidadã”, apareciam nos debates, no geral, quando a maioria os associava a prostituição, AIDS e depravações de toda sorte. Por isso, na Comissão de Sistematização, quando impossível reversão posterior, a união estável como nova entidade familiar parida a fórceps ficou bem demarcada pela heteronormatividade reinante no “acordo masculino” com direito a risos: “entre o homem e a mulher”. Tudo que a sociedade brasileira conseguiu de avanço ou quebra de paradigma naquele espaço historicamente relevante foi à custa de muita luta e articulação social; e, nesse particular, credito às 25 deputadas constituintes, entre mais de 500 homens deputados e senadores constituintes, boa parte dos conteúdos constitucionais com sentido efetivamente igualitário, transformador e cidadão para além de 1988 (apesar, lógico, de muitos parlamentares também terem assumido idêntico compromisso, unindo-se às pautas defendidas pelo “lobby do batom”). Três décadas depois de promulgada, nossa Constituição continua repetindo que união estável é entre o homem e a mulher; LGBTs só têm precariamente reconhecidos direitos familiares porque o Supremo a interpretou de forma inclusiva em 2011, mas o texto constitucional segue intocável. Pessoas trans ainda estão fora de cogitação nas “casas da democracia”, onde alguns legislam como se estivessem em púlpitos de igrejas. Se um parlamentar não tivesse passado por situação delicada quanto à esposa após o nascimento da filha em 1987, a licença paternidade poderia não ter sido aprovada na Constituinte, mesmo as deputadas também a defendendo. Prometeu-se demais em 1987/88 e ainda não se consegue igualdade nas relações familiares violentas quanto ao gênero. Óbvio que houve avanços importantes e dignos de comemoração na seara familiar (como eu repito sempre, após muita luta social e articulações intra/extra parlamento), mas a missão dada àqueles/as parlamentares poderia ter feito a sociedade avançar mais em matéria de famílias. Quando uma minoria pugnava, por exemplo, pela ampliação do conceito constitucional de família, a baixa qualidade dos debates da maioria conservadora me deixou surpreso. 

Desde: Qual contribuição Falas de que família(s)? dará à sociedade?

ED: A de que consolidar direitos diversos aos que me tocam, não me afetam nem me diminuem: somam para uma sociedade democraticamente mais fortalecida e harmoniosa. Daqui, surge outra fundamental contribuição: a de que, ainda em tempos de pontuais ódios recrudescidos, nossas esperanças e forças de luta precisam prosseguir renovadas por um país, de fato, solidário, justo e respeitoso para com todas as diferenças. Nossas diversidades nos enriquecem mais. Jamais devem ser motivo para a vergonhosa manutenção de preconceitos e discriminações infundadas. Quanto mais amor e respeito à dignidade de todas as pessoas sem distinção, mais avançaremos. É muito simples. Só assim, quem sabe, um dia, a aplaudida promessa da Constituinte (de que “a Nação vai mudar”) torne-se realidade para todas e todos as/os brasileiras/os, sem qualquer distinção. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

3ª edição da oficina para "focas" será realizada neste sábado, 24 de março

Imagem: divulgação
Por Raulino Júnior 

A oficina Uso de blogs por "focas" como experimento para a prática jornalística chega à sua 3ª edição, na Biblioteca Central do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris). Neste sábado, 24 de março, das 9h às 11h, estudantes de Jornalismo e profissionais que estão no início da carreira serão estimulados a criar blogs para servir como portfólio de trabalho. A atividade é gratuita, com direito a certificado. Para participar, basta enviar e-mail para viva.bpeb@fpc.ba.gov.br e solicitar a inscrição. As vagas são limitadas.

O artista plástico Gil Vieira (1º plano) e  o compositor Zanoni Ferrari: participantes da última oficina, realizada no dia 24 de fevereiro. Foto: Raulino Júnior

Na ocasião, os participantes terão informações sobre a origem dos blogs e suas principais características, o uso eficaz da ferramenta no jornalismo, importância do uso das tags nos posts e da produção multimídia. A série de oficinas faz parte das comemorações pelos sete anos do Desde, blog de experimentações jornalísticas com o viés cultural.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O oba-oba da Casa do Carnaval

Equipamento cultural feito às pressas deixa a desejar em alguns aspectos 
Fachada do prédio que abriga a Casa do Carnaval da Bahia, na Praça Ramos de Queiroz, Centro Histórico de Salvador. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior 

O Carnaval de Salvador agora tem um espaço que abriga um pouco da sua história e criatividade: a Casa do Carnaval da Bahia. Localizado na Praça Ramos de Queiroz, no Pelourinho, ao lado do Plano Inclinado Gonçalves, o museu foi inaugurado no dia 5 de fevereiro de 2018 e segue com visitação gratuita até o final do mês. Para isso, os interessados devem ligar para (71) 3324-6760 e agendar. O funcionamento é de terça a domingo, das 11h às 19h. Após o prazo de visitas gratuitas, quem quiser conhecer o lugar vai pagar R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

Foto: Raulino Júnior

Com curadoria geral de Gringo Cardia (contando com o auxílio de Paulo Miguez e Jonga Cunha), a Casa do Carnaval da Bahia surge pretensiosa, mas deixa a desejar em alguns aspectos. A começar pelo nome, que sugere abarcar a festa que acontece em toda a Bahia (Casa do Carnaval da Bahia), mas, no fundo, o conteúdo se restringe ao Carnaval de Salvador. Outra coisa que é muito fácil de constatar é a falta de uma maior atenção para os criadores do trio elétrico e da guitarra baiana, Dodô e Osmar. A referência presente no museu é muito pequena, diante da importância dos precursores. Os compositores, que são artistas fundamentais em todo o processo da festa, ficam à míngua. Por que o curador não foi alguém da Bahia, conhecedor dos nossos costumes e tradições? Nada contra Gringo, tudo a favor de uma história contada com o nosso olhar. Vale ressaltar que o equipamento cultural foi concebido em três meses. Então, pouco tempo para muita pesquisa que tinha de ser feita, não é?

Os vídeos exibidos na Casa são muito longos, o que torna a visita mais cansativa do que ir atrás do trio. Um parêntese: qual foi o critério de escolha dos narradores dos vídeos que são exibidos na exposição? Porque tem cada incoerência! Daniela Mercury narra o vídeo intitulado "O Carnaval afro" e Regina Casé narra dois: "Chamando gente" e "Cantores do Carnaval da Bahia" (em parceria com Margareth Menezes). Por que Regina Casé? Uma pesquisa no Google responde! Ela é amicíssima de Gringo! A interatividade proposta pelo curador é bem-vinda e está conectada com as demandas de hoje, mas será que, para quebrar a monotonia de um vídeo atrás do outro, não teria condições de contar com a participação de monitores bem informados para falar sobre a festa? Competência, certamente, não falta. Por que essa alternativa não foi pensada? Num museu que tem como temática o Carnaval, o que mais se espera é dinamismo, não é? Até a tentativa pensada para isso (a Sala Cinema Interativo - Vídeos de Dança), soa insossa e, o que se percebe, é que apostaram numa interação pela interação; vazia e sem um propósito substancial. Na sala, os visitantes são convidados "a viver a experiência" de estar no Carnaval de Salvador. Para isso, usam voluntariamente adereços carnavalescos e acompanham as "aulas de dança" que são apresentadas numa projeção. A ideia é aprender os passos e dançar junto (?). Perderam a chance de mostrar, por exemplo, as danças que surgiram naturalmente nas ruas, por causa do Carnaval, como a da galinha e muitas outras. Essa coisa ensaiadinha das danças foi uma invenção da indústria cultural e, mesmo sendo bem-sucedida, descaracterizou a naturalidade da nossa festa. Em entrevistas, Luiz Caldas sempre fala que a dança do fricote surgiu de uma cópia dos passos que um folião estava fazendo na rua, atrás do trio. É por aí.

Importância cultural


Teto e parede com arte de J. Cunha; homens de lata de Aloisio de Madre de Deus também integram o cenário. Foto: Raulino Júnior

Apesar de apostar num conceito que privilegia a superfície e não a base dessa potente manifestação popular, a importância cultural do museu é incontestável. Quem o visita, se depara com um universo carnavalesco muito rico e peculiar. Tudo foi pensado com capricho. Na entrada, tetos e paredes são cobertos por obras do artista plástico J. Cunha. Além disso, há uma instalação de homens de lata de Aloisio de Madre de Deus, do Bloco da Latinha. Ainda na primeira parte, uma máscara gigante da careta de Maragojipe, assinada por Memeu Barbudo, chama a atenção. Há também uma biblioteca, com livros que refletem sobre o Carnaval e seus personagens.

Máscara gigante da careta de Maragojipe, do artista Memeu Barbudo. Foto: Raulino Júnior

Biblioteca focada no Carnaval: estímulo à leitura. Foto: Raulino Júnior

A exposição é formada por três salas: a primeira, denominada Origens do Carnaval; a segunda, Criatividade e Ritmos do Carnaval e a terceira, já citada aqui, Sala Cinema Interativo. O visitante começa a imersão na Sala Origens do Carnaval. Lá, assiste a vídeos narrados por expoentes da festa, como Gerônimo (Origens do Carnaval da Bahia), Márcia Short (Carnaval das elites nos salões e nas ruas), Mariene de Castro (Celebrando o samba), Márcio Victor (A Praça Castro Alves) e Alberto Pitta (Afoxés do século XIX). Miniaturas de personagens do Carnaval (ambulantes, artistas, foliões), feitas pela artesã Cibele Sales, estão por toda a parte da sala.

Sala Origens do Carnaval. Foto: Raulino Júnior

Sala Origens do Carnaval. Foto: Raulino Júnior

Na Sala Criatividade e Ritmos do Carnaval, os vídeos são narrados por Carla Visi (O visual do Carnaval), Daniela Mercury (O Carnaval afro), Regina Casé (Chamando gente), Luiz Caldas (A mistura de ritmos no Carnaval da Bahia), Margareth Menezes (O tambor e a guitarra do Carnaval da Bahia), Claudia Leitte (Blocos de trio), Ivete Sangalo (O samba e o pagode no Carnaval da Bahia), dentre outros.

Um dos figurinos de Carlinhos Brown. Foto: Raulino Júnior

Fantasias dos blocos de matriz africana. Foto: Raulino Júnior

O vídeo narrado por Caetano Veloso, Cantoras do Carnaval de Salvador, é reproduzido sem que o áudio do artista saia. Segundo um monitor do museu, o santoamarense não autorizou o uso de nenhum de seus áudios, incluindo os de entrevistas antigas sobre o Carnaval e os de músicas. Alguma pendenga judicial. Na sala em questão, o visitante vê alguns figurinos doados pelos artistas que fazem e fizeram o Carnaval acontecer, as fantasias dos blocos de matriz africana e uma instalação no teto, feita com tambores, um dos símbolos da festa. Visualmente, a exposição mata a pau.

Postagens mais antigas Página inicial

Copyright © Desde que eu me entendo por gente

Design by Josymar Alves